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A Arca Perdida da Aliança

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Narra a história dos vinte anos de uma fantástica aventura do autor em busca de um dos artefatos mais cobiçados de todos os tempos: a Arca da Aliança, que, segundo a Bíblia, continha os Dez Mandamentos entregues a Moisés. Parfitt é professor de estudos judaicos em Londres e é constantemente descrito como o Indiana Jones britânico.

Năm:
2008
Nhà xuát bản:
Record
Ngôn ngữ:
portuguese
File:
PDF, 1,36 MB
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和经济学先生约会

Năm:
2021
Ngôn ngữ:
chinese
File:
MOBI , 14,81 MB
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Modul Pelatihan Kader Pemberdayaan Masyarakat Kampung

Năm:
2018
Ngôn ngữ:
indonesian
File:
PDF, 4,38 MB
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CAPA
ROSTO
DEDICATÓRIA
MAPA
A CAVERNA
O SINAL DE SEU PARENTESCO
PROTOCOLOS DOS SACERDOTES
A CIDADE DOS MORTOS
UMA CHAVE PARA O PASSADO
OS OPOSTOS SÃO A MESMA COISA
A PRIMEIRA CATARATA
LENDAS DA RAINHA DE SABÁ
A TUMBA DE HUD, O PROFETA DE DEUS
O GENE DE MOISÉS
O FOGO DE DEUS
O POTE DE FOGO SAGRADO

CÃES DE GUARDA DO REI
A POEIRA DE SEU ESCONDERIJO
EPÍLOGO

CONVERSÃO E FORMATAÇÃO
https://www.facebook.com/juliocwmaciel

TUDOR PARFITT
A ARCA PERDIDA DA ALIANÇA
Tradução de ALVES CALADO

EDITORA RECORD
2008

Para meu irmão Robin Parfitt, 1946-2006, seus filhos Adam e Ifor
Parfitt e suas netas Poppy e Ella Parfitt

A CAVERNA
Era um tempo de seca.
Em 1987 minha casa era uma cabana de palha numa
ressecada área tribal no centro do Zimbábue, no sul da África,
completamente isolada do resto do mundo. Eu estivera fazendo
pesquisas de campo sobre uma misteriosa tribo africana chamada
Lemba. Isso era parte do meu trabalho. Na época eu era professor
de hebraico no Departamento de Estudos do Oriente Próximo e
Médio na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS, em
inglês) da Universidade de Londres, e já fazia um tempo que esta
tribo era meu principal tema acadêmico.
Como eu passava o tempo na aldeia? No calor escaldante do
dia caminhava pelos morros próximos ao povoado e remexia nos
restos da antiga cultura de construções de pedra, que, segundo os
lembas, era trabalho de seus ancestrais distantes. Com minha
pequena colher de pedreiro havia descoberto alguns ossos,
pedaços de cerâmica local e um ou dois instrumentos de ferro com
idade incerta. Não era muita coisa sobre a qual escrever. Depois eu
lia, fazia minhas anotações e passava boa parte da noite ouvindo as
narrativas dos anciãos.
Os lembas faziam uma reivindicação espantosa, de que tinham
origem israelita, ainda que a presença de israelitas ou judeus na
África central jamais tivesse sido atestada anteriormente. Por outro
lado, desde o início da Idade Média, houvera rumores de reinos
judeus perdidos na África mais escura. O que eu ouvira era que a
tribo acredi; tava que, quando deixaram Israel, estabeleceram-se
numa cidade chamada Senna — em algum local do outro lado do
mar. Ninguém tinha qualquer idéia de onde, no mundo, ficava essa
misteriosa Senna, nem eu. A tribo pedira que eu encontrasse sua
cidade perdida, e eu havia prometido tentar.
O que eu sabia em 1987 sobre a tribo lemba, com 40 mil
membros, era que eles eram negros, falavam várias línguas banto

como venda ou shona, habitavam diversos locais na África do Sul e
no Zimbábue, fisicamente não se diferenciavam de seus vizinhos e
tinham uma quantidade de costumes e tradições idênticas às das
tribos africanas entre as quais viviam.
Pareciam ser completamente africanos.
Mas, por outro lado, também tinham alguns costumes e lendas
misteriosos que não pareciam africanos. Não se casavam com
pessoas de outras tribos. Não comiam tradicionalmente com outros
grupos. Circuncidavam os meninos. Praticavam a matança ritual de
animais, usando uma faca especial; recusavam-se a comer porcos e
várias outras criaturas; sacrificavam animais em locais altos como
os israelitas antigos e seguiam muitas outras leis do Velho
Testamento. A visão da lua nova era de importância fundamental
para eles, assim como para os judeus. Os nomes dos clãs pareciam
derivados do árabe, do hebraico ou de alguma outra língua semítica.
Durante os meses que eu havia passado na aldeia tentando
desvendar seus segredos, jamais encontrei a prova absoluta — a
arma fumegante, demonstrando que sua tradição oral, que os ligava
à antiga Israel, era verdadeira. Jamais encontrei uma inscrição em
pedra, um fragmento de uma oração em hebraico, um artefato do
antigo Israel. Nem mesmo uma moeda ou um caco de cerâmica.
Antes de chegar ao Zimbábue eu havia passado alguns meses
com as grandes comunidades lembas no país vizinho, a África do
Sul. Ali, os líderes da tribo haviam me dado muitas informações. Eu
esperava conseguir mais no Zimbábue e pedi que o chefe lemba
local facilitasse a pesquisa. O chefe Mposi convocou uma reunião
dos anciãos dos clãs lembas e, instigados por minha promessa de
tentar encontrar sua cidade perdida de Senna, concordaram
formalmente em permitir que eu pesquisasse sua história.
Mas depois disso não me contaram nem de longe o quanto eu
esperava. Eram reservados com relação a qualquer coisa que
tivesse a ver com suas práticas religiosas. Foi somente a disposição
de me sentar perto deles até tarde da noite, até que meu uísque

tivesse afrouxado a língua dos velhos, que me permitiu ouvir algo
sobre seu culto notável.
No dia seguinte eles se arrependiam das indiscrições noturnas
e murmuravam que os anciãos do clã não deveriam ter autorizado
minha pesquisa, que os brancos não tinham nada que se intrometer
nos assuntos deles e que eu deveria parar de tentar penetrar no
manto de segredo que velava seus ritos religiosos.
Outros tentaram me amedrontar e fazer com que eu fosse
embora contando histórias sinistras do que havia acontecido com
gerações anteriores de pesquisadores que tinham penetrado demais
em caminhos proibidos. Um deles fora circuncidado à força depois
da ousadia de caminhar pela Dumghe, a montanha sagrada da tribo.
Outro havia chegado perto demais de uma caverna sagrada na base
da Dumghe e fora ferido com uma assegai tradicional e
tremendamente espancado. Escapara com vida por pouco.
À medida que minhas esperanças de encontrar a pista
fundamental com relação à verdadeira identidade deles começavam
a morrer, também morriam as plantações ao redor da aldeia. Não
chovera nada durante meses. Havia um pouco de líquido denso e
lamacento no fundo das cacimbas. Todas as manhãs as mulheres
traziam água em enferrujadas latas de óleo equilibradas na cabeça.
Quando isso acabasse, não teriam o que beber. A não ser a cerveja
da venda, para quem tivesse dinheiro. E esses não eram muitos.
Nesta manhã, cedo, antes do nascer do sol, o chefe havia
convocado uma cerimônia da chuva. O mensageiro do chefe tinha
chegado assim que as pessoas da casa começavam a acordar. A
fogueira de cozinhar estava sendo soprada, e era aquecida a água
para o chá e para abluções, trazida todas as manhãs à minha
cabana pela filha de meu gentil anfitrião, Sevias. O mensageiro
disse a Sevias que a presença dele seria necessária naquela noite.
Este era um último e desesperado lance de dados.
Houvera seca durante tanto tempo que os riachos que um dia
haviam trazido vida e peixes ocasionais ao povoado tinham

desaparecido completamente. Agora pareciam trilhas de cabras
cheias de poeira funda e fina. Sem água, logo a vida na aldeia seria
impossível. A tribo teria de se mudar. Mas para onde? A seca cobria
toda a região.
No fim da tarde os anciãos e notáveis se reuniram na grande
cabana do chefe, no centro de seu kraal — o grupo de cabanas que
formavam sua propriedade. Tinham sido convidados a beber
chibuku — uma cerveja de milho feita em casa, com consistência de
mingau —, dançar durante toda a noite e entreter os ancestrais
pedindo chuva. Isso era os confins da África mais profunda.
Sevias me convidou a acompanhá-lo. Caminhamos juntos pela
terra ressequida enquanto ele me contava sobre os grandes
rebanhos que já possuíra, sobre as árvores gemendo sob o peso
das frutas, sobre as espigas de milho que antigamente eram
grandes como abóboras.
Estávamos entre os primeiros a chegar. Sentei-me perto de
Sevias num banco de barro cozido que rodeava a cabana e olhei
com grande interesse os preparativos para a festa dos ancestrais.
Nunca havia imaginado que teria permissão de observar qualquer
coisa como aquela já que sem dúvida ela fazia parte do coração de
seu culto.
Eu tinha uma máquina fotográfica, um gravador e um caderno.
Tinha quase certeza de que esta noite me daria material para ao
menos um artigo acadêmico, um artigo impressionante.
O chefe Mposi sentou-se sozinho. Estava com saúde ruim e
parecia preocupado. Olhava o chão de terra, apoiando a cabeça no
topo da bengala. Com um movimento súbito chamou as esposas
para servirem cerveja.
Ela está lá, parada, e não está fazendo bem a ninguém!
Já vou servir — respondeu rispidamente a esposa mais velha,
levantando o pote de cerveja com os braços musculosos.
Muito tarde — resmungou ele.

O pote de chibuku foi passado de mão em mão, da direita para
a esquerda, sem qualquer demonstração inadequada de pressa,
como uma garrafa de vinho Madeira depois de um jantar elegante
em Oxford.
O silêncio foi rompido pelo chefe chamando os nomes de suas
quatro esposas. Eram singularmente diferentes uma das outras em
idade, tamanho e beleza. Cada uma respondeu por sua vez,
ajoelhadas lado a lado, e começaram a bater palmas. Viraram-se de
costas para o chefe, levantaram-se e acenderam velas, enquanto as
outras mulheres começavam a ulular e assobiar.
Uma longa trompa de chifre de antílope foi enfiada através da
abertura para dentro da cabana, e um toque triunfante silenciou o
som agudo das mulheres. O homem que soprava a trompa era alto
e forte. Usava uma saia feita de tiras de pele preta e ao redor da
cabeça tinha uma faixa de pele de leopardo. Era o feiticeiro. Seu
nome era Sadiki — um dos nomes de clãs dos lembas — nome
inconfundivelmente semítico cuja presença na África central era
uma anomalia misteriosa. Ele comandou a cerimônia. Chocalhos
magagada, feitos de cabaça, estavam amarrados aos seus
tornozelos com cordas de fibra de casca de árvore. Ele batia os pés
no chão de terra da cabana e soprava uma nota longa e
assombrosa na trompa.
Quatro mulheres idosas sentadas juntas no banco de barro que
seguia por todo o perímetro da cabana começaram a bater em
tambores de madeira. Os outros convidados estavam reunidos ao
redor do feiticeiro, impelidos nos movimentos curtos e estremecidos
da dança pelos ritmos dos tambores e dos chocalhos magagada,
praticamente sem se mexer, perdidos em concentração.
Sadiki estava parado no epicentro da tempestade de sons,
direcionando seu movimento. Tinha um ar poderoso e régio, e
olhava com arrogância ao redor. De modo sugestivo, mexeu um dos
pés. Depois, uma das mãos. Seu corpo seguiu e, posicionando-se
na frente de um dos tambores, dançou como Davi diante da Arca,
parando para soprar a trompa de chifre semelhante à shofar que um

dia fora tocada no Templo de Jerusalém. As tocadoras de tambor
pareciam velhas e frágeis demais para produzir um som daqueles,
no entanto deveriam tocar durante horas, sem pausa.
A cerveja começou a circular mais depressa. A pobreza havia
dominado a aldeia. Fazia muito tempo que os potes de cerveja não
eram passados com tanta liberalidade. Alguns homens, não mais
acostumados a beber, já estavam inebriados.
A mulher mais velha do chefe já estava aparentemente
possuída pelos espíritos dos ancestrais. Olhando de um lado para o
outro, caiu no chão chorando. Olhando ao redor de modo
desfocado, levantou o vestido comprido, de estilo ocidental, acima
das nádegas gordas e encalombadas até tirá-lo pela cabeça.
Dançou nua, posicionando-se no espaço diante das tocadoras de
tambor, que Sadiki deixara livre.
O ritmo acelerou de novo. Com o suor descendo pelo peito
largo e musculoso, Sadiki pôs um adereço de penas pretas de águia
na cabeça da mulher nua. Sevias me disse que isso era para
demonstrar respeito pelos ancestrais. Ela continuou dançando,
lançando grandes sombras nas paredes iluminadas por velas. Caiu
de joelhos, soluçando, diante do velho chefe e pôs com ternura o
adereço na cabeça dele.
O chefe estava morrendo. Todo mundo dizia isso. Parecia
cinzento e doente. Fez um gesto para eu me juntar a ele. Pegou
minha mão e sussurrou no meu ouvido: — Os ancestrais vieram de
Israel: vieram de Senna. Estão aqui conosco. Adeus, Mushavi.
Talvez nos vejamos em Senna.
Senna era a cidade perdida de onde os lembas tinham vindo,
também era o lugar aonde esperavam ir depois de morrer.
O rosto dele, iluminado pela luz trêmula das velas, era
corrugado com marcas da idade e da doença; seus olhos estavam
escondidos por papadas de carne clara e pintalgada. Espiou-me e
depois indicou que eu deveria me levantar e deixá-lo. Entristecido e

aturdido por suas palavras, voltei ao banco onde estavam meu
caderno, a máquina fotográfica e o gravador.
Eu estava na aldeia havia tanto tempo que começava a me
sentir em casa, como um deles. Tinha bebido um bocado de sua
cerveja chibuku. Depois dos primeiros goles ela se torna mais ou
menos palatável, e depois de um tempo é positivamente aceitável.
Percebi que aquele não era um momento para ficar sentado num
canto tomando notas e gravando música lemba. Havia coisas mais
importantes a fazer. Esta era mais uma ocasião para participação do
observador. Tirei a camisa para, como pensei, misturar-me aos
homens e mulheres semi-nus cujas sombras fantasmagóricas
saltavam loucamente nas paredes e que caíam numa espécie de
transe ao meu redor. A mulher mais velha do chefe atravessou a
cabana, inclinou-se sobre mim, com os peitos murchos roçando meu
ombro, e sussurrou algo incompreensível em shona, a língua da
tribo shona, dominante na região do Zimbábue onde viviam os
lembas.
Comecei a dançar ao ritmo forte dos tambores. Uma das
mulheres mais novas do chefe estava dançando com os seios de
fora, na minha frente, oscilando, bêbada, suplicando aos ancestrais,
passando as mãos nos seios e descendo pela barriga e as pernas.
As tocadoras de tambor aceleraram o ritmo.
Outra mulher, num transe remelento, tirou as roupas e foi para o
centro da cabana. Homens ficaram de pé ao redor, admirando seu
corpo esguio e os seios fartos, instigando-a.
Ela está falando com os ancestrais — gritou Sevias no meu
ouvido. — Logo eles vão responder. Quando as vozes deles forem
ouvidas, será melhor você ir embora.
Perto da meia-noite houve uma mudança na atmosfera.
Imaginei que havia chegado a hora de oferecer os sortilégios e as
orações secretas do culto. Essas eram coisas muito bem
guardadas. Eram os códigos orais que governavam a vida dos
lembas e que sem dúvida tinham as pistas para o passado que eu

estava buscando. Esses códigos e sortilégios eram para mim o
âmago da questão. Era disso que eu queria fazer parte. Era para
isso que eu tinha vindo.
Meus braços estavam levantados; meu rosto estava voltado
para o teto de palha. O suor escorria do meu corpo. Sentia uma
empolgação enorme. Eu fora aceito, era um deles. Os ancestrais
iam baixar e eu estaria ali para observar o que aconteceria em
seguida. Ninguém do mundo externo jamais havia observado isso.
Dentro da minha cabeça podia sentir uma espécie de canal se
abrindo, parecia um canal de comunicação com os ancestrais
israelitas da tribo.
Eu estava me rejubilando com a eficácia de minha metodologia
de pesquisa cinco estrelas quando senti um punho se chocar contra
a lateral do rosto. Era o punho da mais velha e mais forte mulher do
chefe. Caí no chão em cima do corpo deitado e fétido do maior
bêbado dos Mposi — uma espécie de mendigo chamado Klopas,
que eu conhecia e cujo cheiro havia sentido muitas vezes. Por
alguns segundos, perdi a consciência. Fui arrastado para fora da
cabana por alguns homens e encostado na lateral da construção.
É… eu chateei a mulher do chefe — falei. — Lamento muito.
Não estava lamentando tanto assim. Estava me sentindo
tremendamente furioso.
Mushavi — disse Sevias, inclinado acima de mim. — Você não
chateou ninguém. O soco foi apenas as boas-vindas dos ancestrais.
Talvez também tenha sido um pequeno aviso. Só um pequeno
aviso. Se os ancestrais não quisessem você aqui, não teriam dado
um soco fraco como esse, teriam feito picadinho de você. Agora
você deve ir, porque os ancestrais estão chegando entre nós. Os
que não são iniciados devem sair.
Os espíritos dos ancestrais não ficariam felizes em me ver ali,
explicou ele. Segredos seriam compartilhados. Havia coisas que eu
não deveria saber. De modo truculento, pensei que, se eu não

conseguisse descobrir as coisas secretas ali, naquela noite, as
chances eram de nunca saber. Era agora ou nunca.
Do lado de fora da cabana, um grupo de anciãos estava
olhando ansioso para o céu noturno, esperando sinais de chuva.
Sevias sentou-se ao meu lado, encostado na parede. Seu rosto com
rugas gentis traía sinais de preocupação. Sua preocupação não era
somente pela chuva, ou pela falta dela, se bem que esta fosse uma
questão fundamental para ele, assim como para os outros — de fato
sua vida e a vida de sua família dependiam disso — mas também
por mim e pelo meu desapontamento ao não ser admitido nos
segredos tribais. Eu já havia lhe contado que meu trabalho de
campo não rendera tanto quanto eu esperava.
De cabeça inclinada, as mãos levantadas num gesto de súplica,
ele perguntou com apenas uma sugestão de sorriso: Mushavi, você
encontrou o que estava procurando no tempo que passou conosco?
Ele freqüentemente me honrava com o elogioso nome tribal de
Mushavi, que os lembas geralmente só usam entre si e que eu
achava que poderia estar conectado a Musawi — a forma arábica
de “seguidor de Moisés (Musa)”. Talvez ele estivesse tentando me
lisonjear chamando-me de Mushavi, mas o resto de sua pergunta
era incompreensível. Ele sabia muito bem que, na maior parte, os
segredos da tribo permaneciam intactos.
Sorri, e com o máximo de paciência que pude juntar, falei:
Você sabe muito bem, Sevias, que ainda há muitos segredos
que vocês não me contaram. E não se esqueça que os anciãos de
todos os clãs concordaram que eu tivesse acesso a tudo.
É — concordou ele, sério — mas muitas vezes expliquei a você
que, não importando o que tenha sido dito na reunião dos clãs, há
coisas que não podem ser contadas fora da irmandade dos
iniciados. Orações, feitiços, sortilégios. Muitos dos nossos segredos
não podem ser revelados. Os outros lhe disseram isso. Eles teriam
de matá-lo, Mushavi, se você ficasse sabendo dessas coisas
secretas. É a lei.

Seu rosto enrugado se tornou quase uma paródia de
preocupação e ansiedade.
Sevias era um homem bom. Em todos os meses que eu havia
passado em seu kraal, apesar da seca e da situação política
insegura dentro da tribo e do país como um todo, apesar de
dificuldades familiares, ele sempre fora calmo, gentil e digno. Agora
eu percebi que nunca fora mais feliz na vida do que quando me
sentava sob a grande árvore no kraal de Sevias.
Ele arrastou os pés descalços e calosos na terra seca.
Mas e os segredos da tribo? — insisti. — As coisas que vocês
trouxeram do norte, de Senna. Já me contaram sobre elas, mas
ainda não vi nenhuma.
É verdade. Nós trouxemos objetos de Jerusalém há muito
tempo e trouxemos objetos de Senna. Objetos sagrados,
importantes, de Israel e Senna.
Senna era a cidade perdida que, segundo a tribo, ela havia
habitado depois de deixar a Terra de Israel. O professor M.E.R.
Mathivha — o erudito líder da tribo lemba na África do Sul — já
havia me contado muitas coisas sobre a lenda de Senna. A tribo
viera de Senna “atravessando o mar”. Ninguém sabia onde isso
ficava. Haviam atravessado “Pusela”, mas ninguém sabia onde isso
ficava, também. Tinham vindo para a África, onde, por duas vezes,
reconstruíram Senna. Esse era o resumo da história.
Sevias — insisti —, você não pode ao menos me contar o que
aconteceu com os objetos da tribo?
Ele examinou o céu e permaneceu calado. Depois murmurou:
A tribo está espalhada numa grande área. Você sabe, uma vez
nós violamos a lei de Deus. Comemos camundongos, que são
proibidos para nós, e fomos espalhados por Deus entre as nações
da África. Assim os objetos foram espalhados e escondidos em
locais diferentes.
E o ngoma? Onde você acha que pode estar?

O ngoma era um tambor de madeira usado para guardar
objetos sagrados. A tribo havia seguido o ngoma, carregando-o no
alto, durante a viagem pela África. Eles afirmam que o trouxeram de
Israel há tantos anos que ninguém se lembra mais de quando isso
aconteceu. Segundo suas tradições orais, eles carregaram o ngoma
à frente da tribo nas batalhas e ele os havia guiado na longa
caminhada pelo continente.
Segundo a tradição oral dos lembas, o ngoma costumava ser
carregado diante do povo, em duas varas. Cada vara era inserida
nos dois aros de madeira presos nos dois lados do ngoma. O
ngoma era muitíssimo sagrado para a tribo, praticamente divino.
Objetos sagrados do culto eram levados ali dentro. O objeto era
santificado demais para ser posto no chão: no fim de um dia de
marcha era pendurado numa árvore ou posto numa plataforma
construída especialmente para ele. Era santo demais para ser
tocado. Os únicos membros da tribo que tinham permissão de se
aproximar dele eram os sacerdotes hereditários que sempre faziam
parte do clã Buba. Os sacerdotes buba serviam ao ngoma e o
guardavam. Qualquer um que o tocasse, não sendo os sacerdotes e
o rei, seria derrubado pelo fogo de Deus que irrompia do próprio
tambor. Ele era levado para a batalha e garantia a vitória. Matava os
inimigos dos guardiães do ngoma.
Eu ouvira falar do ngoma pela primeira vez alguns meses antes,
na África do Sul. O professor Mathivha me contara o que sabia
sobre o objeto e eu recebera um relato detalhado de um velho
lemba chamado Phophi, que conhecia bem a história da tribo.
Phophi havia me contado sobre o tamanho do ngoma, suas
principais propriedades e que tradições eram associadas a ele.
Eu também sabia que, cerca de quarenta anos antes, um antigo
ngoma fora encontrado por um estudioso alemão chamado von
Sicard numa caverna junto ao Limpopo, o rio infestado de crocodilos
que marca a fronteira entre o Zimbábue e a África do Sul. Ele o
havia fotografado e a foto fora incluída num livro que escreveu sobre
o assunto, mas aparentemente desde então o ngoma havia

desaparecido sem deixar vestígios. Mathivha, Phophi e outros
anciãos lembas haviam me contado que o artefato encontrado pelo
alemão em sua caverna remota era sem dúvida o ngoma original
que os lembas haviam trazido do norte.
Uma noite, algumas semanas antes da dança da chuva,
sentado até tarde junto ao fogo com Sevias e outros anciãos, ouvi
um pouco mais sobre a lenda do ngoma.
— O ngoma veio do grande templo de Jerusalém — disse
Sevias. — Nós o carregamos até aqui, pela África, usando as varas.
À noite, ele ficava numa plataforma especial.
De repente me ocorreu que, na forma, no tamanho e na função,
o ngoma lungundu era semelhante à bíblica Arca da Aliança, a
famosa arca perdida que fora procurada sem sucesso através dos
tempos. A descrição bíblica do objeto, que eu conhecia desde os
anos em que estudava hebraico clássico em Oxford, estava gravada
na minha mente.
Uma arca de madeira de shittim; o seu comprimento será de
dois côvados e meio, e a sua largura de um côvado e meio, e de um
côvado e meio a sua altura […] e fundirás para ela quatro argolas de
ouro, e as porás nos quatro cantos dela, duas argolas num dos
lados, e duas argolas noutro lado. E farás varas de madeira de
shittim, e as cobrirás com ouro. E colocarás as varas nas argolas,
aos lados da arca, para se levar com elas a arca. As varas estarão
nas argolas da arca, não deverão ser tiradas dela. Depois porás na
arca o testemunho, que eu te darei.
A Arca, como o ngoma, tinha poderes sobrenaturais. Jamais
poderia tocar o chão. Era praticamente divina. Como o ngoma, era
levada para a batalha e garantia a vitória. Objetos sagrados,
inclusive as tábuas em que foram inscritos os Dez Mandamentos e a
vara mágica de Arão, irmão de Moisés, eram guardados ali dentro.
Qualquer um que ao menos olhasse para ela seria derrubado por
seu poder espantoso. Uma casta sacerdotal fundada por Arão,
irmão de Moisés, guardava a Arca. O clã sacerdotal dos Buba,

fundado por um indivíduo chamado Buba, que supostamente teria
guiado os lembas para fora de Israel, guardava o ngoma.
As semelhanças funcionais eram marcantes. Mas as diferenças
na forma eram significativas. Aparentemente a Arca era uma
espécie de caixa, cofre ou baú, ao passo que o ngoma — apesar de
também carregar coisas dentro — era um tambor. A Arca era feita
de madeira, mas coberta com folhas de ouro; o ngoma era
simplesmente feito de madeira.
De modo mais fundamental, não havia conexão nos tempos
antigos entre o mundo da Bíblia e esse canto remoto do interior da
África. E não havia absolutamente nenhuma prova, de modo algum,
de que os guardiães lembas do ngoma tivessem ancestralidade
judaica. Mesmo assim, a sobreposição entre esses objetos
aparentemente muito diferentes me atraía e levou minha mente em
direção à estranha história da Arca da Aliança. Era uma
comparação interessante mas, pensava eu, nada mais do que isso.
Do lado de fora da cabana do chefe, com o ruído tumultuoso
dos tambores suplantando todos os sons da noite, encostei-me na
parede de barro e palha e senti lentamente a dor do soco ir
sumindo. Sevias parecia pouco à vontade. Segurou meu braço e fez
com que eu me levantasse, levando-me mais para longe dos grupos
de homens que estavam de pé ao redor, desfrutando do ar noturno
antes de retornar ao frenesi da dança.
Falar do ngoma e das coisas que foram trazidas de Israel é
perigoso demais, Mushavi. Isso faz parte dos conhecimentos
secretos da tribo. Não posso lhe contar sobre isso mais do que já
contamos. Contamos que nós nos chamamos de Muzungu ano-ku
bva Senna, “os brancos que vieram de Senna”. Contamos que o
ngoma veio conosco de Senna. Contamos o que era o ngoma. E
contamos que o ngoma não é visto por homens há muitos, muitos
anos.
Sevias já ia se virar quando hesitou e pôs a mão no meu braço.

Os velhos dizem que foi o ngoma que nos guiou até aqui, e
algumas pessoas dizem que quando chegar a hora certa o ngoma
virá nos levar de volta. As coisas estão piorando neste país. Talvez
a hora esteja chegando.
Sevias — eu disse —, sei que este é um dos maiores segredos
de sua tribo e sei que há muitos na tribo que não desejam
compartilhar os segredos comigo. Mas partirei em breve. Não quero
voltar de mãos vazias. Poderia simplesmente me contar, por favor,
se tem alguma idéia de onde pode estar o ngoma lungundu?
Sevias parou, olhou ao redor e ficou em silêncio. Olhou para o
céu noturno de uma limpidez frustrante, e de novo arrastou os pés
na poeira fina do kraal.
— Onde está agora, não sei. Mas há alguns anos os homens
muito velhos costumavam dizer que ele estava escondido na
caverna abaixo da montanha Dumghe. Está em segurança lá. É
protegido por Deus, pelo rei e pelo “pássaro do céu”, por cobras de
duas cabeças e pelos leões, “os guardiães do rei”. Foi levado para
lá, segundo dizem os velhos, pelos Buba de Mberengwe. Eles
formam o clã dos sacerdotes lembas e naqueles tempos havia
alguns deles que ficavam do lado de Mberengwe. Mas, como você
sabe, esse é o único lugar aonde você não deve ir. À montanha
Dumghe.
Ele me deu boa-noite e voltou rapidamente para se juntar aos
anciãos.
Peguei Tagaruze, o policial que fora instruído pelo quartel da
polícia local para atuar como meu guarda-costas (e ficar de olho em
mim), e caminhei os quase quatro quilômetros de volta até o kraal
de Sevias.
Senti uma pontada de tristeza porque logo estaria deixando
aquele belo lugar com seus morros ásperos e grandes pedras
redondas, moldados por eras de vento e chuva, sol e seca.
No dia seguinte estava planejando ir para o norte em direção ao
Malawi e à Tanzânia, seguindo a trilha da passagem dessa tribo

enigmática através da África, em busca de sua cidade perdida de
Senna. Parecia uma busca longa e solitária, e de repente senti
saudade de casa.
Tinha recebido uma carta de Maria, minha voluptuosa
namorada latino-americana, dançarina de salsa. Era uma carta
amorosa, porém firme. Ela queria que eu voltasse, que deixasse
essa busca comodista do que ela chamava de Senna inexistente.
Queria que eu me casasse com ela e levasse uma vida normal, a
vida convencional e sedentária de erudito e professor universitário.
Se eu não quisesse casar com ela, havia um monte de homens que
iriam querer.
“Os homens”, escreveu ela, “existem aos milhões. Você é um
imbecil se não aproveitar a chance agora, quando ela existe. Outros
aproveitariam.”
E era verdade. Cada vez que ela andava pela rua, poucos
homens deixavam de notá-la. Maria tinha um jeito especial de andar.
Tentei afastá-la do pensamento. Ela esperaria. Provavelmente.
Ainda estava me sentindo tonto por causa do chibuku. Se o que
Sevias havia dito estava correto, talvez houvesse alguma chance de
eu encontrar seu ngoma lungundu. Isso talvez revelasse alguma
coisa sobre de onde a tribo viera. Talvez me ajudasse a encontrar a
cidade perdida de Senna. Talvez houvesse alguma coisa escrita
nele, objetos sagrados dentro, que pudessem me ajudar na busca.
Eu só precisava ir para a Dumghe.
Senti um tremor de empolgação. A montanha sagrada dos
lembas situa-se a pouco menos de quatro quilômetros do kraal de
Sevias. Era um belo monte arredondado, virado para o leste e
coberto com as características pedras redondas da região, e
esparsamente coberto de mato. Havia um terreno aberto entre o
kraal e a montanha Dumghe. Não havia povoados nem kraals —
nem cachorros barulhentos para alertar à tribo sobre minhas
atividades. Não havia animais selvagens perigosos, a não ser

bandos de chacais e algum leopardo ocasional, e eu estava bêbado
demais para me preocupar muito com isso.
Seguindo uma ânsia súbita inspirada pelo chibuku, decidi
caminhar até a caverna sagrada, o lugar onde a tribo me havia
proibido de ir. Uma área interdita. No passado, qualquer um que
ousasse ir lá e não fosse iniciado, seria punido com a morte.
Os anciãos estariam dançando e bebendo nas próximas horas,
pensei. O resto da tribo estava dormindo. Ninguém saberia que eu
estive lá. Eu sabia que a caverna era situada na base de duas
rochas enormes que haviam se separado de um penhasco que
formava o lado leste da montanha. Era coberta por grandes pedras
lisas e arredondadas, moldadas durante milênios pela erosão dos
ventos. As rochas atrás do local onde se escondia a caverna haviam
sido apontadas para mim uma vez, e tinham me dito que atrás da
caverna sagrada havia outra passagem, mais sagrada ainda do que
a primeira. Talvez fosse ali que o ngoma estivesse protegido, como
diziam, por seus leões e cobras policéfalas.
Eram cerca de duas da madrugada quando cheguei — junto
com Tagaruze, meu forte policial guarda-costas — à grande árvore
meshunah onde eu havia encontrado o guardião lemba da Dumghe
nos meus primeiros dias na aldeia. A partir da árvore, todos os
caminhos que levavam à caverna seriam visíveis. O guardião oficial
supostamente estaria sempre de serviço, mas era difícil acreditar
nisso e, de qualquer modo, nesta ocasião, eu tinha pouca coisa com
que me preocupar, porque o tinha visto na festa da chuva, bêbado
como todos os outros.
Paramos um momento e depois subimos pela lateral da
montanha, em direção à trilha íngreme que levava à caverna. De um
dos lados o caminho se grudava à face da rocha; do outro havia
uma queda íngreme de doze metros no vazio. Era uma descida
traiçoeira e as pedras ficavam caindo no abismo.
Até Tagaruze ficou amedrontado. Naquela noite ele estava indo
muito além do dever. Sentia-se tão fascinado pelas histórias dos

lembas quanto eu. Mas começava a se arrepender de ter
concordado em me acompanhar até ali. Não era muito dado a
palavras, mas finalmente murmurou: — Por que estamos fazendo
isso? O que estamos procurando?
Eu também estava apavorado e não respondi.
Pensei ter escutado um barulho nas árvores e nos arbustos
acima da face de pedra da Dumghe. Ficamos em silêncio. Alguns
dias antes, um dos anciãos tinha visto um leão, um leão branco,
segundo ele, na montanha. Os anciãos tinham me contado que o
ngoma era sempre protegido por leões. Eram os leões de Deus, os
guardiães do rei. Fomos em frente, escorregando pela descida que
levava à caverna na base das rochas, parando de vez em quando
para prestar atenção a sinais de perigo. Tagaruze tirou sua arma do
coldre e enfiou no cinto. Havia um cheiro úmido e acre no ar. Minhas
mãos estavam molhadas de suor devido ao esforço da caminhada e
do medo.
De repente o caminho sumiu sob meus pés e foi somente a
rapidez de Tagaruze ao agarrar meu braço que me impediu de
desaparecer pela borda. Pedras soltas caíram do penhasco numa
avalanche respeitável. Um eco chapado ecoou sob nós. Paramos e
olhamos a ravina abaixo. Dava para vislumbrar a silhueta do estágio
final da descida pelo penhasco do outro lado da grande parede de
rocha.
Com cuidado continuamos descendo. Num momento houve um
estalo de galhos; em outro, o som de um grande pássaro e uma
corrente de ar depois; silêncio. Imaginei se aquele seria o “pássaro
do céu”, a criatura que Sevias dissera ser um dos protetores da
Dumghe.
Chegamos à base de duas grandes rochas. Houve outro som
de galho se partindo. Talvez os lembas realmente mantivessem
alguém ali o tempo todo, para guardar seus tesouros, afinal de
contas. Havia apenas espaço para andarmos em fila. Fui na frente,
apontando a lanterna ao redor até chegarmos ao que parecia a

entrada da caverna. Aquele lugar, pensei, devia ser o mais sagrado
para os lembas. Entre a pedra e a face do penhasco havia um
monte de seixos soltos. Pus ali meu pé calçado com a bota para
deserto, segurando a lanterna com uma das mãos e apoiando a
outra na lateral de uma pedra. Não havia nada a ser visto.
Encorajado, passei pela entrada estreita e apontei a lanterna em
frente. Tudo que vi foi uma parede de pedra.
Mas pude ouvir uma coisa; uma espécie de som ofegante, uma
tosse ou um rosnado, e então um som mais alto — uma fungada,
talvez, que se transformou num rugido ensurdecedor ricocheteando
na face de rocha ao redor. Minha mão apertou a lanterna, cheia de
terror. Minhas pernas viraram geléia. A arma, pensei, atire no que
quer que isso seja. Tagaruze estava com a arma, mas quando me
virei percebi que Tagaruze não estava mais atrás de mim. Tagaruze
havia desaparecido. Eu estava sozinho.
Recuei pela abertura, de costas, mantendo o rosto virado para
o som, depois subi a trilha estreita atrás dele e fugi pelas encostas
cobertas de mato da montanha Dumghe. O ruído nos acompanhou,
subindo pelo fosso natural formado pelas grandes rochas, montanha
acima. Era um som aterrorizante — poderia ser um leão, um
leopardo ou qualquer outra coisa. Não esperamos para descobrir.
Corremos o mais depressa que pudemos até chegarmos à árvore
meshunah.
Sentamo-nos ofegantes na base da árvore. Enquanto meu
traseiro batia no chão senti algo deslizando de baixo de mim e indo
para o mato rasteiro. Estremecendo, levantei-me depressa.
Que diabo foi isso? — perguntei.
Só uma cobra — disse Tazaruze, sem jeito.
Meu sangue ficou gelado e senti vontade de vomitar. Haviam
me dito que um dos guardiães do ngoma era uma cobra de duas
cabeças. Eu sentia um milhão de vezes mais medo até mesmo da
cobra menor e mais inofensiva do que de qualquer felino, pequeno
ou grande, na face da terra.

Estremeci.
E aquela coisa na caverna?
Devia ser um ancestral dos lembas no corpo de um leopardo ou
um leão. Ou seriam os protetores do ngoma, os leões do Todopoderoso, os guardiães do rei. Todo mundo sabe que eles rondam
nesta montanha. Foi um erro terrível, enorme.
O que o policial dissera era indubitavelmente verdadeiro. Foi
um erro. Eu lamentaria esse equívoco em muitos anos seguintes.
Não encontramos o esquivo e misterioso ngoma lungundu, o
estranho artefato que representava um papel tão importante na
imaginação dessa remota tribo africana, mas os acontecimentos
daquela noite mudariam minha vida e me colocariam numa busca
que só seria solucionada muitos, muitos anos depois.

O SINAL DE SEU PARENTESCO
Sinto muito. É uma falsificação!
Era meu primeiro encontro com Reuven. O ano era 1992, meia
década depois da aventura na boca da caverna da montanha
Dumghe. Estávamos no meu escritório abobadado na Cidade Velha
de Jerusalém. Uma luz estranha parecia vir de um documento
amarelado, aberto sobre a mesa.
Reuven ben Arieh era financista e comerciante de diamantes,
um judeu tremendamente ortodoxo e muitíssimo pouco ortodoxo em
todas as outras coisas. Vivia principalmente em Jerusalém, mas
também tinha casas em Paris, Londres e Miami. Era um sujeito alto,
barbudo, forte. A primeira coisa que notei nele foram os olhos. Eram
olhos incríveis. Aquele sujeito era incrível. Tinha uma esposa linda,
de voz macia, Clara, admirada por todos, e uma missão a que
dedicava toda a sua vida.
Sua missão era de simplicidade nítida e destinada ao fracasso:
acabar com o ódio dos gentios pelos judeus. Acabar com o antisemitismo. De uma vez por todas. Simples.
O ódio contra os judeus era um assunto em que ele possuía
alguma experiência pessoal: a maioria dos membros de sua família,
inclusive o pai e a mãe, o irmão e a irmã, havia sido morta em
Treblinka. Reuven, que tinha uns dez anos a mais do que eu,
nasceu na Holanda em 1935. Durante a ocupação nazista passou
três anos escondido no sótão de um vizinho. Em 1945 saiu e
descobriu que era órfão. Mais tarde, naquele ano, foi reivindicado
por parentes de sua mãe, idosos e sem filhos, que o criaram. Eles
morreram no início dos anos cinqüenta, deixando-lhe sua fortuna.
Reuven estudou química na França, durante alguns anos seguiu a
profissão do pai, lapidador de diamantes, e em 1953 mudou-se para
Israel.

Quando o conheci, ele havia lutado em três guerras contra
Estados árabes: a Campanha do Sinai em 1956, a Guerra dos Seis
Dias em 1967 e a Guerra do Yom Kippur em 1973.
Era a hostilidade dos muçulmanos e árabes com relação a
Israel e aos judeus que mais o preocupava. Era essa hostilidade,
particularmente, que ele queria eliminar do mundo. Quando me
encontrei com ele depois disso — e sempre que o encontrava — era
do ressentimento dos árabes e muçulmanos contra Israel que ele
realmente queria falar.
Alguns dias antes, Reuven havia comprado o manuscrito com
Anis, um dos comerciantes de Jerusalém. O documento poderia ser
datado mais ou menos da época do profeta Maomé. Segundo ele
disse, iria mudar o mundo.
Quando chegou à minha casa na Cidade Velha naquele fim de
tarde de verão, segurando o velho manuscrito, Reuven estava
empolgado como nunca o vi, antes ou depois.
Usava uma versão muito elegante da vestimenta composta por
chapéu preto, sobretudo escuro e comprido, e calças, usada pelos
judeus ortodoxos na Europa. Mas tudo estava sutilmente errado.
Apesar do calor e da poeira, as roupas não tinham qualquer mancha
e eram cortadas imaculadamente por um alfaiate parisiense. O
tecido de lã tropical do terno era de um azul muito escuro, tramado
em padrão espinha-de-peixe. Ele exalava uma ligeira sugestão de
Homme, da Chanel. Como eu descobriria mais tarde, geralmente ele
cortava o cabelo em Nova York, freqüentava manicure regularmente
e suas camisas feitas à mão eram da Turnbull & Asser, na Jermyn
Street de Londres. Apesar de não ser judeu, morava em Israel havia
muitos anos e era familiarizado com muitos aspectos da religião e
da cultura judaicas, e para mim estava claro que Reuven não se
parecia com nenhum outro judeu ortodoxo de Jerusalém — e foi o
que falei.
Rindo, ele disse:

Quero que as pessoas digam: Ei! E o Reuven, aquele cara
bonito! Aquele judeu ortodoxo muitíssimo bem vestido!
Ele havia “retornado” ao judaísmo logo depois da Guerra do
Yom Kippur. Antes disso fora um israelense completamente secular.
Agora era o que se conhecia como baal teshuvah — uma espécie
de judeu renascido. Mantinha um lar estritamente kosher, mas em
outros lugares comia ocasionalmente em restaurantes não-kosher.
Desde sua conversão ao judaísmo ortodoxo, havia mergulhado no
Talmud — a grande coletânea de leis religiosas judaicas — e no
misticismo judeu da cabala.
Mas também tinha o que chamava de seu “interesse principal”.
Durante muitos anos estivera examinando textos islâmicos na
tentativa de encontrar algo que pudesse ser usado para neutralizar
— ou melhor, erradicar — o ódio dos muçulmanos contra Israel e os
judeus. O que estava procurando era algum texto islâmico antigo,
desconhecido, elogiando os judeus ou prevendo o retorno dos
judeus à Palestina, algo que fizesse com que a ocupação das terras
muçulmanas pelos judeus fosse ordenada por Alá, algo que
legitimasse o sionismo aos olhos do mundo árabe, algo que
destruísse o ódio muçulmano contra Israel. Era uma idéia
extraordinária.
Como ele dizia:
Jamais chegará a paz ao Oriente Médio enquanto os dois
lados, judeus e muçulmanos, não reorientarem seu relacionamento
espiritual. Precisamos de algum documento do passado que nos
permita pôr o conflito de lado e respeitar uns aos outros!
E parecia que hoje ele havia encontrado esse documento.
À primeira vista parecia uma carta do Profeta. Uma coisa
espantosa era que não se destinava a difamar e condenar os
grandes inimigos do islã — os judeus — e sim a elogiá-los e
defendê-los. Na verdade, os Filhos de Israel — os Banu Israil, como
são chamados no Alcorão, são postos nas nuvens.

Ele me explicou que Maomé nunca, jamais, tivera a idéia de
criar uma nova religião. Queria simplesmente apresentar as crenças
mais antigas, do judaísmo e do cristianismo, ao povo politeísta do
deserto. A direção original em que os primeiros discípulos de
Maomé rezavam — a qibla — era a de Jerusalém. Somente depois
que os judeus de Medina — uma das cidades-oásis perto de Meca
— se mostraram desleais e lutaram contra ele, Maomé se virou
contra os judeus e começou a rezar na direção de Meca.
O que isso tem a ver com mudar o mundo? — perguntei.
Tudo, meu amigo, tudo. Você poderia dizer que a deslealdade
dos judeus para com o Profeta foi o início do conflito entre os
islamismo e o ocidente. Conhece Bernard Lewis, estudioso do
Oriente Médio?
Sim, ele ensinava na SOAS.
Lewis chama isso de “choque de civilizações”. Foi a grande
fissão entre as culturas.
É — admiti —, de certa forma isso é verdade.
Mas escute só! O que tenho aqui poderia facilmente reverter
tudo isso. Foi o motivo para eu pedir este encontro. Preciso que
você o autentique. Este manuscrito dá uma perspectiva
radicalmente nova sobre o que os judeus de Medina realmente
fizeram. É explosivo. Logo os muçulmanos poderiam estar se
juntando aos judeus e até mesmo aos cristãos para rezar. Pode
imaginar isso? Poderiam todos estar rezando juntos virados para
Jerusalém. Rezar na mesma direção é o primeiro passo para pensar
na mesma direção.
Os olhos de Reuven estavam brilhando com o esplendor de sua
visão.
Este documento é como um relato jornalístico do passado —
continuou ele. — Do tempo em que aquelas religiões problemáticas
nasceram, um fragmento do passado que nos permitirá pôr de lado

o conflito e realmente tentar amar uns aos outros. O Armagedom
poderia ser adiado por um século ou dois!
Este era o cerne do documento que ele tinha em mãos: Maomé
jura na carta que eram os judeus de Medina e das outras cidadesoásis na Arábia que sempre vinham em sua ajuda nas muitas
batalhas contra as tribos pagãs do deserto. Os judeus estavam até
mesmo dispostos a violar seu santo sabá para ajudá-lo. Jamais
saíam de seu lado. Jamais o traíam. Durante uma única campanha
sangrenta os judeus mataram mais de 20 mil inimigos pagãos do
Profeta: 7 mil cavaleiros especiais, 7 mil cavaleiros comuns e 7 mil
soldados de infantaria.
Foi isso que o Profeta realmente prometeu aos judeus —
declarou Reuven com reverência, levantando um dos dedos para
dar ênfase. — E não séculos de desprezo e perseguição! Escute só!
— Ele pôs óculos de leitura, examinou o documento e leu em voz
alta: — “Ó homens dos Filhos de Israel, por Alá, vou recompensálos por isso… Vou lhes conceder minha proteção, minha aliança,
meu juramento e meu testemunho enquanto eu viver e enquanto
minha comunidade viver depois de mim, até que vejam meu rosto
no Dia da Ressurreição.”
Ouviu? — perguntou ele, a voz subitamente aguda, empurrando
o documento contra meu rosto e revelando um punho de camisa
imaculadamente lavado. — Se o mundo muçulmano souber disso,
mudará a atitude contra Israel da noite para o dia! Não haverá mais
guerras entre árabes e Israel! Não haverá mais ataques terroristas!
Infelizmente havia mais coisas na carta do que saltava aos
olhos. Provavelmente era bem antiga, dava para ver isso. O corpo
do texto era em árabe e havia uma curta introdução em hebraico. Eu
sabia algo sobre paleografia — o estudo da forma da escrita antiga
— hebraica e dava para ver que aquele era um texto hebraico
iemenita medieval. Isso era genuíno.
Então me lembrei de que certa vez, no Iêmen, tinha visto um
documento quase idêntico, na casa de um antiquário em Sana’a, a

capital do Iêmen. Chamava-se Dhimmat al-Nabi (A proteção do
Profeta) e era uma antiga invenção judaica, uma velha falsificação,
que os judeus iemenitas haviam criado para contrapor à
animosidade de seus vizinhos muçulmanos. No mundo muçulmano
não havia comunidade judaica tão sofrida e perseguida quanto a
dos judeus do Iêmen. Eles precisavam de toda a ajuda que
pudessem obter. Mas aquele documento não convenceria muitos
estudiosos muçulmanos a virar suas opiniões de cabeça para baixo.
Não mudaria o mundo.
É uma pena — falei — mas é falso. Uma falsificação muito
antiga.
Um vento hamseen amarelo estava soprando do deserto. Fazia
um calor sufocante. O rosto de Reuven ficou consternado quando fiz
minha avaliação, e ele ficou quieto. Só permaneceu ali sentado,
fazendo careta, coçando a lateral da cabeça onde levara um tiro de
raspão de um egípcio, numa de suas últimas guerras.
Se fosse genuíno, o documento que ele havia acabado de me
mostrar poderia servir muito bem para seus propósitos.
Você tem certeza absoluta de que é uma falsificação?—
perguntou ele, tentando manter o desapontamento longe da voz.
Bastante certeza — respondi, peremptório.
Numa noite fria e úmida em Jerusalém, alguns meses depois,
estávamos caminhando de volta à minha casa na Cidade Velha.
Reuven havia acabado de chegar de Miami. Estava bronzeado e
vestia-se de modo meticuloso como sempre, mas parecia agitado e
eu imaginei o que poderia estar perturbando-o. Tínhamos acabado
de passar pela Porta de Jafa, uma das principais entradas da cidade
murada de Jerusalém, quando ele disse:
Redenção. É isso, redenção.
Como assim?
Ele ficou quieto. Caminhamos em silêncio pelo beco que dava
no Bairro Armênio. Depois de alguns minutos, ele se virou para mim

e murmurou:
Tudo se trata de redenção. Acho que encontrei o que estava
procurando. Sei o que fazer.
Você não comprou outro documento antigo de seu colega
comerciante, comprou? — perguntei, incrédulo.
Coçando a barba, ele sorriu.
Descobri.
Descobriu o quê?
Você verá. Espere até chegarmos à sua casa.
Passamos pela Porta de Sião, outra entrada histórica da
cidade, e caminhamos à sombra dos muros medievais em direção
ao Muro Oeste, um dos grandes muros de arrimo construídos por
Herodes, o Grande, para cercar a área do Templo, e que desde
então é sagrado para os judeus.
Havia sido um inverno gelado, e eu estava quase congelando
quando chegamos em casa. Acendi o fogão Friedman, a parafina,
no escritório e acendi uma pilha de lenha de oliveira na lareira da
sala.
Finalmente, quando nos sentamos, ele não conseguia mais se
conter.
Acho que encontrei o que estava procurando — anunciou em
voz baixa. — Acho que a solução é a Arca da Aliança.
Conversamos até tarde da noite, acomodados ao redor do fogo,
tomando conhaque israelense 777. Ele começou falando dos
esforços que aconteciam em todo o mundo para localizar o antigo
tesouro do Templo de Jerusalém. Explicou a importância religiosa
global da Arca e seu significado profundo para os místicos,
cabalistas e maçons. Explicou a história da Arca como a Bíblia a
relata.
A Arca fora feita por ordem de Deus pouco depois do êxodo dos
judeus do Egito, por volta de 1200 a.C. Era essencialmente um cofre

contendo as tábuas da lei que Deus havia dado a Moisés no Monte
Sinai, e supostamente seria a casa do Deus invisível dos israelitas.
Era posta num santuário parecido com uma tenda, chamado de
tabernáculo, e somente os sacerdotes da tribo de Levi podiam se
aproximar dela. A Arca punia com fogo os que desconsideravam as
regras rígidas que governavam o modo como ela deveria ser
tratada. Era carregada à frente dos israelitas quando avançavam
pelo deserto e supostamente teria gerado algum tipo de energia que
abriu um caminho seco através do rio Jordão.
Os israelitas precisavam destruir Jerico se quisessem
conquistar sua Terra Prometida, e, de algum modo estranho e
misterioso, que nunca foi suficientemente explicado ou
compreendido, a Arca foi fundamental para que as muralhas da
cidade desmoronassem diante da horda de israelitas que a
cercavam. O primeiro lugar religioso importante que os israelitas
criaram em Canaã foi em Siló, não muito longe de Jerusalém. O
tabernáculo e a Arca ficaram lá por centenas de anos. Durante as
batalhas contra os filisteus — os grandes inimigos dos israelitas — a
Arca era usada.
Era extremamente perigosa.
Por fim, na época do rei Salomão, o filho do rei Davi, ela foi
posta no magnífico novo templo criado para abrigá-la. A partir desse
ponto ouvimos pouquíssima coisa sobre a Arca, e supõe-se que em
algum momento nas centenas de anos seguintes, provavelmente
antes de 587 a.C., esse artefato fabuloso desapareceu.
Enquanto Reuven falava, minha mente foi transportada de volta
a cinco anos atrás, à minha noite perigosa na montanha Dumghe e
às vagas associações que eu havia imaginado entre o ngoma e a
Arca. Mas Reuven era impossível de ser contido.
Quanto mais falava da Arca, mais ele se empolgava.
A Arca irradiava energia mística do centro do mundo. Para os
místicos judeus, a Terra de Israel, Eretz Yisrael, ficava no meio do
mundo. Jerusalém ficava no centro da Eretz Yisrael. O Templo

ficava no centro de Jerusalém. O Santo dos Santos, o devir, ficava
no centro do Templo e a Arca de Moisés ficava no centro do Santo
dos Santos. Diretamente sob a arca ficava a even Shetiyyath, a
pedra fundamental, uma pedra encharcada de poder místico. Uma
espécie de bateria cósmica do universo!
O rosto de Reuven havia assumido um brilho estranho e sua
voz ficou mais alta.
Esse — estrondeou ele — é o lugar onde Adão foi enterrado.
Foi ali que o patriarca Abraão estava preparado para sacrificar seu
filho Isaque. Foi ali que Maomé ascendeu ao céu. Foi ali que
aconteceu a própria criação do mundo. Essa pedra fundamental era
o elemento crítico que separava o mundo superior do poço do caos
abaixo, e a Arca incorpora essa centralidade básica.
Ofegando, ele descreveu a construção da Arca pelo artesão
israelita Bezalel pouco depois de Moisés ter guiado os hebreus para
fora do Egito. Falou dos exóticos querubins de ouro postos sobre a
tampa dourada — o Trono da Misericórdia — que era nada menos
do que o trono do Todo-poderoso. Para ser honesto, todas aquelas
referências místicas e sobrenaturais eram um balde de água fria
para mim.
Ora, Reuven — gemi. — De qualquer modo, segundo o livro do
Deuteronômio, foi Moisés que fez a arca, e não Bezalel, e era
somente uma caixa comum de madeira. Se você se lembrar, Deus
ordçnou que Moisés fizesse duas tabuletas de pedra e uma arca de
acácia. Ele fez a arca simples de madeira e levou as tabuletas de
pedra ao topo da montanha. A lei foi gravada nelas e Moisés trouxe
as tabuletas e as colocou na Arca que havia feito. Nenhum ouro,
nem querubim, nem nada.
“Os estudiosos modernos acreditam que a descrição mais
elaborada da Arca, com todo aquele ouro, foi provavelmente a
tentativa, da parte de algum escriba, de fazer com que a Arca
estivesse à altura das glórias do Templo, e que foi escrita centenas
de anos depois do período em que ela foi feita, o que teria sido por

volta de 1300 a.C. Os escribas que anotaram as descrições
detalhadas da Arca jamais a tinham visto. Simplesmente
descreveram o que imaginavam. Sua imaginação foi infinitamente
mais influenciada por modelos egípcios e assírios do que pela Arca
em si.”
Não tente diminuí-la — rosnou Reuven, agarrando meu braço.
— A Arca era a coisa mais sagrada do mundo, posta no lugar mais
sagrado do mundo. Era onde a Shekhinah — a presença divina de
Deus — vivia. A combinação do lugar mais sagrado do mundo com
o objeto mais sagrado do mundo irradiava sua própria força e o
mundo ainda está tremendo! Meus professores cabalistas
ensinaram que a Arca existiu e ainda existe numa espécie de
hiperespaço. Ela desafiava todas as leis da física. Quando foi posta
no Santo dos Santos, estava presa às varas usadas para carregá-la.
Sabemos que o espaço disponível era pequeno demais para o
tamanho das varas, e ainda assim a Arca podia caber. A Arca foi
construída a partir de um original divino.
Então era uma espécie de falsificação, como o seu documento.
Não era sequer um original — falei rindo, esperando desinflá-lo um
pouco ou provocá-lo a um discurso mais racional.
Durante alguns minutos ele pareceu perdido em pensamentos e
depois mergulhou de volta nos aspectos mágicos e místicos da
Arca, que pareciam muito distantes de seu interesse central, de sua
missão. Ele disse que seus professores cabalistas faziam uma
analogia entre a Arca, com as duas tabuletas dentro, e o cérebro
com seus dois hemisférios. Do mesmo modo como o cérebro era
fundamental para o funcionamento do corpo, a Arca era
fundamental para o funcionamento do povo de Israel.
Reuven — falei com paciência —, isso tudo é indubitavelmente
de grande interesse, mas como o tesouro do Templo e a Arca
perdida poderiam ajudá-lo em sua missão de aplacar o mundo
muçulmano?

Porque encontrei isto! — disse ele em triunfo. — Encontrei uma
passagem incrível no Alcorão, e isto não é falsificação. — Ele pegou
na pasta um exemplar do Alcorão e leu em voz alta, em seu árabe
impecável.
O profeta deles lhes disse: “O sinal de seu parentesco é que a
Arca da Aliança será restaurada a vocês, trazendo afirmações de
seu Senhor e relíquias deixadas pelo povo de Moisés e o povo de
Arão. Os anjos irão carregá-la. Este deveria ser um sinal
convincente para vocês, se forem de fato crentes.”
— Maomé considerava que a devolução da Arca aos judeus
seria um sinal do parentesco de Saul, o primeiro rei de Israel. Não
tenho dúvida de que muçulmanos contemporâneos veriam a Arca
restaurada como um sinal convincente de parentesco e legitimidade
política hoje. Este deveria ser um sinal convincente para vocês, se
forem de fato crentes. A Arca vista no contexto desse versículo do
Alcorão seria melhor do que qualquer manuscrito. De qualquer
modo, quem pode dizer se o tipo de manuscrito que estive
procurando realmente existe? Mas a Arca já existiu e, se eu puder
encontrá-la, ela garantiria a paz no nosso tempo, entre muçulmanos
e judeus.
Eu jamais havia notado aquele versículo do Alcorão. Ele
continuou, contando o que os teólogos e estudiosos muçulmanos
tinham a dizer sobre a Arca. Aversão muçulmana dos eventos era
baseada frouxamente na conhecida história do apócrifo Segundo
Livro dos Macabeus, um texto judaico tardio, que relata como o
profeta bíblico Jeremias levou a arca para fora do Templo Judeu
logo antes de os babilônios tomarem Jerusalém e destruírem o
Templo em 587 a.C. Jeremias atravessou o Jordão com ela,
chegando ao que hoje é conhecido como Reino da Jordânia,
escondeu-a numa caverna no monte Nebo, a montanha de onde
Moisés havia olhado para a Terra Prometida antes de os israelitas
conquistarem Canaã, e depois lacrou a entrada da caverna. Alguns
seguidores do profeta tentaram encontrar o caminho que Jeremias
havia tomado, para achar a Arca. Ele os censurou e disse que a

Arca permaneceria escondida até que Deus reunisse seu povo no
fim dos tempos.
Aqui os historiadores árabes tomavam a história, e isso era
novidade para mim. Segundo eles, mais tarde a Arca foi descoberta
no monte Nebo pela tribo jurhum. Eles a levaram a Meca e ela
permaneceu lá. Segundo alguns muçulmanos, a Arca ainda poderia
ser encontrada sob a Caaba — a construção no centro de Meca,
que é o lugar mais sagrado do mundo para os muçulmanos. Reuven
me contou outras teorias dos muçulmanos sobre o destino da Arca.
Abbas, primo de Maomé, afirmava que a Arca estava escondida no
mar da Galiléia, Kinneret, em hebraico — e que seria encontrada
logo antes do fim dos tempos pelo Mahdi, uma figura messiânica
islâmica.
O rosto bonito de Reuven estava reluzindo enquanto ele
acrescentava que estudiosos do islamismo acreditavam que as
relíquias de Moisés e Arão seriam encontradas dentro da arca,
inclusive as tábuas da lei, a vara de Arão, o cetro de Moisés e o
turbante de Arão.
Dei um sorriso cético diante dessa lista enunciada piamente.
Arão tinha mesmo um turbante? — perguntei.
Ele me olhou com firmeza.
Você não entende, não é? Não entende que, se eu puder
encontrar a Arca, posso trazer a paz e a redenção a esta parte do
mundo?
Não vou deixá-la para ser encontrada pelo Mahdi! Os
muçulmanos aceitarão a legitimidade de Israel e este país irá se
tornar o que se destinava a ser: uma terra de paz, uma terra de
onde jorra leite e mel! — Sua voz estava rouca de empolgação.
Dava para ver que Reuven estava tomado por uma paixão
genuína e percebi que haveria pouca coisa a ganhar provocando-o.
Bem, é uma idéia muito interessante. Na verdade, de certa
forma é um interesse que nós compartilhamos. Só temos modos

diferentes de expressá-la. Sou fascinado pela Arca, a meu modo,
desde os dias que passei na África. O que eu acho fascinante é que
a idéia da Arca lançou marolas por todo o mundo. Descobri o que
achei que era o fim de uma ondulação comprida e sinuosa quando
estive na África, e imagino que haja outras.
Reuven assentiu com solenidade.
Sim, seus raios penetraram em cada canto da terra, como
ensinam os cabalistas. Seu impacto no mundo, quando eu a
encontrar, será avassalador.
Quando você a encontrar? Ora, volte à Terra, Reuben. Você
não faz idéia de onde ela está. Nem mesmo sabe se ela realmente
existiu. Não creio que tenha existido. Pessoalmente acho que foi
uma idéia, mais do que uma coisa. Este, meu amigo, não é o que eu
chamaria de projeto realista. De qualquer modo, o Alcorão diz que
os anjos irão trazê-la. Você não me parece muito um anjo. Mas
poderia trabalhar nisso.
Descartando minha objeção e meu sarcasmo com um
movimento da mão bem cuidada, ele me olhou direto nos olhos e
disse, com teimosia:
Levei anos passando pente fino nos textos islâmicos em busca
da passagem esquecida que mudaria o mundo. Até aqui fracassei.
De modo que agora, realista ou não, vou ampliar a busca para
incluir a Arca. Se eu puder encontrá-la, a Arca dará verdadeira
legitimidade a Israel. Devolverá nossa soberania espiritual. Irá nos
redimir. Irá redimir o mundo!
Senti um arrepio subindo e descendo pela coluna. A luz do fogo
tremeluzia no teto de pedra abobadado. Junto ao passional Reuven,
eu parecia prosaico. Para mim, a história da Arca guardada na
tenda do tabernáculo me levava de volta à infância em Gales e à
pequena capela chamada de Tabernáculo, onde eu ia com meu pai.
E quando eu mencionara a Arca a meu pai en passant, em minha
última viagem à Inglaterra, seus olhos haviam se iluminado de
interesse.

Mas, mesmo assim, meu interesse por ela era histórico,
pragmático. A visão apocalíptica de Reuven era o oposto. Eu queria
desinflar sua retórica, trazê-lo de volta à Terra, mas não podia. Era
como se sua intoxicação e sua paixão tivessem me paralisado.
Comecei a sentir que a paixão dele também estava me dominando.
Enchi de novo seu copo e o meu e olhei para as chamas. Ele
esticou os pés bem calçados na direção do fogo e se recostou, as
mãos cruzadas na nuca, depois começou a entoar num tom rouco,
tenso e ameaçador:
— Das cinzas um fogo será despertado,
Uma luz das sombras brotará;
Restaurada será a espada partida;
O sem-coroa será rei de novo.
— Isso é do Tolkien, não é? — perguntei.
É — respondeu ele. — De A sociedade do anel. Parece
combinar com meu humor. Pense só: redenção política e religiosa
para o povo judeu. “O sem coroa será rei de novo.” A redenção de
Israel ficará ainda mais próxima com a descoberta da Arca. Durante
milhares de anos ela esteve escondida em algum lugar,
provavelmente quebrada, esmagada, comida por vermes. Mas
“Restaurada será a espada partida”. Tenho um sentimento forte de
que, no meu tempo de vida, essa espada, a Arca, será de fato
restaurada. Tenho um forte sentimento de que a redenção final do
povo judeu não está distante.
Ele parou, e depois prosseguiu num tom seco e reflexivo.
Não sei por que a redenção do meu povo dominou tanto minha
vida. Mas dominou.
Reuven mergulhou de volta em sua nova obsessão. Contou
como o imperador romano anticristão Juliano, o Apóstata, havia
planejado ajudar osjudeus a reconstruir o Templo de Jerusalém,
mas, assim que o trabalho começou, os operários ficaram
assustados porque grandes bolas de fogo jorravam das ruínas. Isso

servia como algum tipo de prova, pensava Reuven, de que no
século III a Arca ainda estava lá.
Ele me contou sobre o poder destruidor e assassino da Arca,
como é descrito vividamente na Bíblia. Contou sobre cavaleiros
templários que, pelo que se sabe, escavaram amplamente sob o
Monte do Templo durante as Cruzadas e, segundo alguns boatos
não substanciados, levaram os antigos tesouros dos judeus de volta
para o Languedoc.
Com intensidade cada vez maior, passou a descrever
escavações secretas mais recentes para localizar os tesouros do
templo. Falou de um excêntrico estudioso e poeta finlandês, Valter
Juvelius, que havia organizado uma escavação secreta no Monte do
Templo entre 1910 e 1911. Juvelius afirmou que havia descoberto
um código bíblico secreto numa biblioteca em Istambul, na época
capital do império otomano, indicando onde o tesouro do templo,
inclusive a Arca, estava escondido. Levantou verbas para uma
expedição e convenceu um capitão dos Guardas Granadeiros, um
tal de Montague Parker, de trinta anos e filho do conde de Morley, a
comandá-la.
Por insistência de Juvelius, a equipe foi acompanhada por um
clarividente dinamarquês que dirigia os trabalhos. Uma noite, em
abril de 1911, sob a cobertura da escuridão e depois de ter
subornado o governador de Jerusalém, Azmi Bey, Parker e sua
equipe, disfarçados de árabes da região, subiram ao monte e
começaram a escavar diretamente sob a própria Cúpula da Rocha,
o lugar mais sagrado da terra.
Os sons chegaram aos ouvidos de um serviçal muçulmano e foi
dado o alarme. Tumultos violentos estouraram por toda a cidade, e
Parker e sua equipe fizeram uma retirada às pressas até o iate da
expedição, ancorado no litoral perto da cidade portuária de Jafa.
Quando retornaram a Londres, as manchetes do London Illustrated
News alardearam: “Será que ingleses descobriram a Arca da
Aliança?”

Eu não fazia idéia se a descoberta da Arca traria de fato a paz
entre Israel e o mundo muçulmano. Em 1992, a situação política em
todo o Oriente Médio estava muito pior do que nos anos anteriores.
A Primeira Guerra do Golfo fora travada um ano antes, e os
moradores de Jerusalém ainda estavam se recuperando do medo
do ataque dos scuds iraquianos com ogivas biológicas ou químicas.
Reuven falava um bocado sobre isso. Estava aterrorizado com o
que poderia acontecer com o povo judeu no futuro. Achava que
outro holocausto era totalmente possível. Com freqüência eu
tentava tranqüilizá-lo dizendo que isso realmente não era muito
provável, mas ele não queria ouvir. Era esse temor e esse pavor do
islamismo extremo que o impeliam.
Em janeiro de 1991, logo antes de os scuds começarem a cair
sobre Israel, eu tinha ido me encontrar com minha velha amiga Lola
Singer. Eu a havia conhecido quando trabalhava em Jerusalém para
o Serviço Britânico de Voluntariado Internacional, em 1963 (foi esse
ano passado em Israel que, de fato, fizera com que eu me decidisse
a estudar hebraico em Oxford um ano depois). Enquanto fazia
trabalho voluntário fui designado para uma instituição que atendia a
crianças deficientes, onde Lola era assistente social. Algumas
crianças eram filhas de mulheres vítimas de experiências de
esterilidade nos campos de concentração. Todas eram
grotescamente deformadas. Uma vez por semana, durante um ano,
fui com Lola visitar os pais de várias crianças em diferentes partes
de Israel.
Foi através de intermináveis conversas com Lola e os pais das
crianças que comecei a entender algo da tragédia da história judia
recente. A própria história de Lola era bastante pavorosa. Judia
polonesa da cidade de Radom, perdera a maior parte dos familiares
durante o Holocausto: foram mortos com gás em Auschwitz. Em
1939, antes da guerra, ela era uma jovem linda e talentosa que
estudava medicina. Para uma judia, ser admitida numa faculdade de
medicina na Polônia nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial
era praticamente impossível. As provas que ela fez para entrar
foram literalmente impecáveis. Eles tiveram de aceitá-la. Depois da

invasão alemã, o mundo de Lola desmoronou. Seu jovem marido,
expulso da Alemanha por ser judeu, foi morto a tiros pelos russos
por ser alemão. Ela conseguiu escapar da Polônia através da
Rússia e chegou a Jerusalém em 1943.
No dia em que a visitei, ela estava sozinha em seu pequeno
apartamento. Como muitos moradores de Jerusalém, Lola tinha
medo de que Saddam lançasse mísseis de gás venenoso contra a
cidade. Agora, já uma mulher idosa, ela estava de pé sobre uma
cadeira, tentando colar pedaços de plástico sobre a janela na vã
esperança de torná-la imune ao ataque por gás. De todas as
pessoas que eu conhecia, ela era a última para quem eu desejaria
essa atividade inútil.
Enquanto eu a ajudava a descer da cadeira, ela disse com os
dentes trincados:
— Mataram minha mãe e meu pai com gás, mataram minhas
tias e meus tios com gás. Mataram meus amigos da escola com
gás. Mataram o vizinho que foi meu namorado da infância com gás.
Mas você sabe, não vão, não vão me matar com gás.
Deixou-se cair numa cadeira e irrompeu em lágrimas. Terminei
de colar os pedaços de plástico. Havia lugares em que eles não se
grudavam à janela e dava para sentir a corrente de ar passando.
Essa proteção não manteria do lado de fora uma brisa de força
média, quanto mais um ataque por gás venenoso.
Quando fui para Oxford fiquei sabendo muito mais sobre o
sofrimento dos judeus do que a maioria dos gentios e, como todas
as pessoas sãs, quis ver o fim daquilo. Como Reuven, também
desejava de modo passional ver judeus e árabes reconciliados.
Talvez, pensei, uma idéia maluca como a de Reuven valesse ser
considerada. Até mesmo uma busca mundial, com verbas enormes,
custasse menos do que uns dois mísseis inteligentes americanos.
Reuven saiu por volta das duas da madrugada. Fiquei mais
umas duas horas olhando as brasas do fogo de oliveira, sonhando
com a busca do meu amigo. Quando, finalmente, fui para a cama,

não consegui dormir. Toda a casa fedia a parafina. Para conseguir
um pouco de ar puro, vesti meu velho jalabiyyeh árabe e fui para o
terraço de casa.
Jerusalém estava banhada por um luar branco e frio. Olhando
na direção do Monte do Templo, dava para ver a grande cobertura
dourada da Cúpula da Rocha brilhando à luz pálida. Naquela noite,
a cidade estava numa beleza de tirar o fôlego. No Talmud está
escrito: “Deus deu dez medidas de beleza ao mundo: nove medidas
deu a Jerusalém, e uma para todo o resto da criação.” Era ali que o
Templo ficara, antigamente. O afloramento de rocha sobre o qual a
cobertura dourada da Cúpula da Rocha fora construída já fizera
parte do Santo dos Santos onde, segundo a mitologia judaica, o rei
Salomão havia posto a Arca.
Parecia-me que as histórias ao redor da Arca eram do mesmo
material que os contos de fadas. Em boa parte das tradições
judaicas havia algo indizivelmente improvável com relação à Arca.
Os textos afirmavam que, quando a Arca foi trazida ao Templo por
Salomão, a própria madeira e o ouro com os quais ela era feita
ficaram vivos e formaram árvores que produziram frutos
abundantes. A Arca soprava vida em tudo. Só quando o infiel rei
israelita Manassés, odiado pela tradição judaica, trouxe um ídolo
estrangeiro para o Templo, as árvores milagrosas secaram e os
frutos murcharam nos galhos.
Isso era estranho, pensei enquanto olhava para a noite. A Arca,
em algum nível, era a arma secreta dos israelitas antigos. Produzia
morte, no entanto soprava vida em tudo. Essas propriedades
pareciam carregar uma poderosa mensagem mística. Reuven havia
explicado que, para os cabalistas, esse dualismo expressava forças
diferentes e opostas agindo no universo. Quando as duas
propriedades da Arca estivessem finalmente em harmonia, chegaria
a era messiânica. O que quer que a Arca expressasse
simbolicamente, era bastante extraordinário. Mas teria sido uma
coisa real, objetiva, ou era apenas um mito poderosamente
simbólico, com muitas camadas e muitas funções?

Fiquei no terraço por um longo tempo, enrolado em meu áspero
manto de lã, olhando a cidade adormecida.
Mas, perguntei-me, e se a arca fosse mais do que apenas uma
coisa imaginada, mítica — a lenda de uma casinha visível para um
Deus grande e invisível?
Alguns haviam dito que a Arca ainda estava enterrada numa
passagem secreta embaixo da Cúpula. Outros haviam afirmado que
ela poderia ter sido levada em segredo para as Colinas da Judéia,
que eu podia ver ao meu redor no horizonte distante; ou mais longe
ainda, para o deserto da Arábia; alternativamente, para as
profundezas sombrias do Kinneret.
Eu ouvira até mesmo boatos de refugiados famintos — quando
estivera na Etiópia alguns anos antes, na época de uma grande
fome — que a Arca fora levada à África pelo primeiro imperador
etíope, Menelik. E ouvira falar de um estranho objeto parecido com
a Arca quando estive no sul da África. Enquanto pensava em onde a
Arca poderia estar, podia sentir uma empolgação crescente,
irracional, atravessando minha veias.
As palavras de Kipling que eu havia amado na infância me
vieram à mente. “Alguma coisa escondida. Vá encontrá-la. Vá
procurar além das cordilheiras — algo perdido além das cordilheiras.
Perdido e esperando por você. Vá!”
Mas será que a Arca teria realmente existido? Haveria algo
escondido? Alguma coisa pela qual procurar? Eu tinha dúvidas.
Minha mente voltou a Reuven. Algumas vezes, quando eu o
olhava, podia sentir uma percepção que poucas pessoas possuíam.
Seus olhos, que haviam sido treinados para discernir o menor
defeito em pedras preciosas, pareciam ver mais longe e com mais
clareza do que olhos normais. No entanto eu me perguntava se ele
seria tão capaz de ver falhas em argumentos quanto nas pedras.
Eu podia ver que caso sua busca resultasse no encontro desse
objeto enigmático, como um objeto real, em alguma manifestação

física, a descoberta realizaria mais do que mil monografias não
lidas.
Mas haveria algum modo terreno de ajudá-lo? Eu poderia
ajudá-lo a mudar o mundo? Queria fazer isso?

PROTOCOLOS DOS SACERDOTES
As sirenes uivaram a noite toda. Grogue, encarei um novo dia
em Jerusalém e percebi que tinha uma obsessão crescente. O
fascínio de Reuven pela Arca havia ocupado meu tempo de sonho,
além de boa parte das horas que passava acordado. Parecia
absurdo, mas eu não conseguia tirar aquilo da mente.
Quando ele viera à minha casa, uma semana antes, havia
pedido que eu lhe desse uma lista de leitura, e este dia seria gasto
para chegar a esse objetivo.
Foi o dia em que as escamas caíram dos meus olhos e vi o que
a Arca era.
Eu havia marcado um encontro com um importante acadêmico
no campo dos Estudos Semíticos Antigos: Chaim Rabin, professor
de hebraico na Universidade Hebraica de Jerusalém. Muitos anos
antes, Rabin havia ensinado em Oxford, onde estudei. Seu
sucessor, David Patterson, que fora meu professor, freqüentemente
insistira em que eu o procurasse. Pedir a ajuda de Rabin para
compilar uma bibliografia era uma desculpa perfeita para finalmente
conhecê-lo. Ele era um erudito bastante notável, ainda que
estivesse ficando velho e eu tivesse ouvido dizer que sua mente
começava a vaguear de vez em quando.
Saí da Cidade Velha e fui até o bairro moderno de Rehavia,
onde encontrei o velho erudito me esperando num café da
vizinhança. Rabin era um homenzinho meio careca, com
sobrancelhas fartas, olhos penetrantes e um sorriso contagioso.
Enquanto tomávamos chá de limão em copos com borda de prata,
expliquei o motivo da minha visita, sem dizer nada sobre Reuven.
Queria fatos claros sobre a Arca, vindos de uma fonte sábia e não
tendenciosa.
Existe alguma chance — eu escolhia as palavras com cuidado
— de que os tesouros do Templo de Jerusalém e a Arca da Aliança

sejam algum dia encontrados? —E ri para ele de um modo que
esperei ser tranqüilizador.
Franzindo as sobrancelhas com incerteza, ele coçou a testa.
Ah, outro caçador de tesouros, não! Não diga que Patterson me
mandou um caçador de tesouros!
Ele falava inglês com um pronunciado sotaque alemão, que não
conseguia tornar seu tom mais agradável.
Fiquei embaraçado e confuso por essa pequena cutucada, e
murmurei que tinha uma espécie de interesse marginal pelo assunto
e queria ajuda na preparação de uma curta bibliografia. Brevemente,
Rabin pareceu a própria imagem da contrição.
Bem, desculpe. Só que recentemente andou-se falando demais
sobre o tesouro do Templo e alguns personagens bem estranhos
vieram bater à minha porta para perguntar coisas e desperdiçar meu
tempo. É verdade: eles desperdiçam meu tempo! Há um monte de
indivíduos e instituições procurando a Arca. Alguns são charlatães e
alguns são completamente sinistros! Há um cavalheiro americano
com entusiasmo ligeiramente exagerado, o Sr. Wyatt, do Tennessee,
que afirmou há não muito tempo ter encontrado a Arca numa
caverna fora dos muros da cidade. Não tem prova alguma, claro. E
Wyatt não é o único entusiasta desse tipo.
Mas por que as pessoas são tão fascinadas por ela?
O que Rabin me contou abriu uma pequena janela para o
passado e mudou para sempre minha visão da Arca.
Ele achava que o motivo para as pessoas se interessarem por
ela tinha algo a ver com sua natureza não-mítica. Era um objeto
simples, com propriedades estranhas. Tinha grande importância
simbólica tanto para o judaísmo rabínico quanto para os cabalistas,
mas havia começado como um objeto real.
Havia tantas histórias improváveis sobre os poderes da Arca na
Bíblia que eu não tinha conseguido percebê-la como um artefato
realmente histórico. A historicidade da Arca era comprovada,

segundo ele, nas crônicas bíblicas mais factuais. Eu não sabia se
ela ainda existia; mas baseado no que Rabin, um dos maiores
eruditos do mundo neste campo tinha a dizer, havia pouca dúvida de
que ela já havia existido.
Além disso, Rabin explicou que a Arca ainda exercia um poder
enorme. Contou, no tom baixo de alguém que tinha dificuldade para
acreditar no que estava falando, sobre uma organização extremista
judia chamada Ateret Cohanim (a Coroa dos Sacerdotes) que
estava planejando a reconstrução do Templo Judeu. Eles
acreditavam que o mundo estava no Fim dos Tempos: o período
antes da vinda do Messias. Restaurar o culto no Templo depois de
um hiato de dois mil anos aceleraria a vinda do Messias.
Rabin me contou que alguns rabinos da Ateret Cohanim
acreditavam que a Arca ainda existia e estavam procurando-a atrás
da Muralha Norte da Cidade Velha. Depois da fatídica vitória de
Israel sobre os Estados árabes, em 1967, essa área da Muralha
ficou sob jurisdição dos judeus pela primeira vez desde a destruição
de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C., e um pequeno salão de
orações logo foi construído num túnel à esquerda da Muralha. De lá,
membros da Ateret Cohanim e seus simpatizantes escavaram
secretamente sob o Monte do Templo, à noite, e penetraram num
sistema de túneis antigos que eles consideravam datar do Primeiro
Templo. Houvera até mesmo boatos de que a Arca fora descoberta.
Se algum dia eles realmente descobrirem a Arca — disse Rabin
— o Templo será reconstruído. Sem dúvida. Se o Templo for
reconstruído, a Cúpula da Rocha, você percebe, terá de sumir. Veja
só, ela fica bem no caminho. O Templo seria reconstruído em seus
alicerces. Sobre suas ruínas fumegantes. Como é o lugar mais
sagrado do islamismo, acredito que esta seria uma receita
razoavelmente eficaz para a próxima guerra mundial. Eles querem
expulsar o islã do local: algumas tentativas por parte de fanáticos
judeus para explodi-la foram frustradas. Na próxima vez talvez não
tenhamos tanta sorte.

Rabin me olhou, com uma farta sobrancelha erguida, os lábios
franzidos em desaprovação.
O senhor quase parece estar sugerindo que encontrar a Arca é
uma possibilidade — comentei.
Talvez esteja. Bem, você sabe, teoricamente — murmurou ele,
sorrindo de modo conspirador. — Como você sabe, os estudiosos
sérios não ligam muito para isso. É mais um assunto para certo tipo
de aventureiro. No estilo do filme, daquele sucesso americano, Os
caçadores da arca perdida. — De novo, ele franziu os lábios. — Mas
talvez, brevemente, pudéssemos pôr nossas reservas acadêmicas
de lado por um momento e desfrutar de um pouco de especulação.
—Ele se recostou na cadeira e sorriu, não sem gentileza.
O principal argumento de Rabin para a possível existência
continuada da Arca era que ela jamais teria caído em mãos
inimigas. Os sacerdotes a teriam retirado muito antes que um
exército sitiante chegasse às portas de Jerusalém. Tanto em 587
a.C., quando os babilônios tomaram Jerusalém, quando em 70 d.C,
quando os romanos destruíram a cidade, houve um alerta adequado
antes que a cidade acabasse caindo.
Naqueles dias — ele explicou — os exércitos viajavam lenta e
ruidosamente. E, de qualquer modo, antes do ataque romano houve
alertas e portentos apavorantes: o mais presciente foi que uma
estrela em forma de espada pairou sobre o Templo, e fez isso na
forma de uma espada romana, um gládio.
Então o senhor acha que ela teria sido retirada?
Sim, sem dúvida. Eles jamais a teriam deixado simplesmente
no Templo, para ser violada pelo inimigo.
-— Quem o senhor acha que poderia tê-la retirado?
Certamente os sacerdotes. Um caminho possível seria seguir o
rastro dos sacerdotes. Se é que eles deixaram rastros.
Rabin tomou um gole de seu chá e olhou para a rua
movimentada. Refletiu por um momento.

Pode ser que o profeta Jeremias, que era de uma família de
sacerdotes, a tenha retirado logo antes da chegada dos babilônios,
como sugere a tradição judaica posterior. Depois de Jerusalém ter
caído sob o poder dos babilônios em 587 — continuou ele,
levantando a mão para atrair um garçom —, não tivemos mais
notícias da Arca. Se foi escondida em algum lugar, provavelmente
isso aconteceu logo antes da destruição da cidade. Pode ter sido
algum tempo antes. Mas provavelmente não mais tarde.
Rabin pareceu fazer uma pausa para respirar e olhou
brevemente as mãos nodosas. Depois, pensativo, continuou:
Nenhum judeu jamais destruiria a Arca, e se os egípcios,
babilônios ou romanos a tivessem destruído ou levado embora,
haveria algum registro. Eles teriam alardeado isso. Para os judeus
teria sido o maior desastre nacional possível — uma calamidade
maior ainda do que a destruição do Templo — e eles teriam posto
isso em crônicas, ainda estariam escrevendo e lamentando a
respeito! Como nós, judeus, adoramos lamentar! Temos todo um
período de três semanas de lamentação, desde o dia 17 do Tammuz
até 9 de Av — mas há muitos outros dias de lamentação durante
todo o ano. No entanto não temos nenhum festival de lamentação
pela Arca. Em vez disso, a história nos proporciona silêncio total.
Sentime sem graça para fazer a pergunta seguinte: como
alguém poderia realmente fazer alguma idéia de onde ela estaria
depois de tanto tempo? Mas, mesmo assim, perguntei.
Mmm… — respondeu ele, com um sorriso enigmático e
esfregando as mãos. — Em algum lugar do Oriente Médio ou da
África, suponho. Há alguma chance remota de ela ter sido levada
para o Egito no século IX a.C. por um certo faraó chamado de
Sisaque na Bíblia. Ou pode ter sido levada mais tarde. E se
estivesse escondida em algum lugar do Egito, há alguma chance de
ter sobrevivido por causa das condições de calor e secura. No
entanto, se você quiser mais precisão, há várias possibilidades
sérias. Até mesmo uma ou duas… bem, vamos chamar de pistas.

Pude ver que, mesmo contra a vontade, Rabin estava gostando
da conversa. Sob meus protestos, pagou nosso chá, pegou meu
cotovelo com um aperto firme e me levou pela movimentada rua
Rehavia até o apartamento onde morava.
Em seu escritório forrado de livros, pegou um volume
empoeirado num velho armário de madeira.
Sabe qual a palavra hebraica para armário?
Claro — respondi.—Aron.
Isso mesmo. Aron significa baú ou armário, qualquer coisa que
guarde coisas. É uma palavra muito simples, não há nada muito
elegante ou espiritual nela. É a mesma palavra que usamos para a
Arca — aron ha-brit — Baú da Aliança. Em inglês, a palavra “Ark” —
que vem do latim, arca — parece… como podemos dizer?,
romântica ou misteriosa, não é? Em hebraico é apenas uma palavra
boa e velha para dizer “baú” ou, de modo mais prosaico, “caixa”.
Ela poderia ter algum outro significado? — perguntei. — É
conectada a palavras cognatas em outras línguas semíticas? —
Enquanto fazia a pergunta, a palavra ngoma adejou brevemente na
minha mente, mas desconsiderei-a de imediato. Que eu soubesse,
não havia conexão entre línguas semíticas e banto.
A palavra cognata significa caixão em fenício e em acadiano do
segundo milênio, e poderia ser uma caixa de madeira em acadiano
do primeiro milênio, se me lembro corretamente.
O significado “caixão” parece muito distante do local de moradia
do Deus vivo — observei. — Diante disso, parece até mesmo um
pouco absurdo.
Não sei — disse ele franzindo o nariz, do modo charmoso como
fazia. — Creio que podemos ter bastante segurança de que, no
hebraico clássico das escrituras judaicas, a palavra significa o que
parece significar, isto é, bem… algo como caixão. Uma ou duas
vezes na Bíblia ela significa literalmente caixão, mas em termos
mais gerais significa caixa ou baú. Bom, onde essa velha e boa

caixa poderia estar? Que pistas possuímos? — perguntou ele com
sorriso de garoto.
Contou que nos escritos dos Sábios Judeus e até mesmo na
Bíblia havia uma quantidade de pistas do paradeiro da Arca. Nos
primeiros textos rabínicos, por exemplo, achava-se que o rei Josias,
que chegou ao trono de Israel por volta de 639 a.C. — a data exata
é discutível — a escondeu em algum lugar do Templo, sob
instruções da profetisa Huldah. Essa era provavelmente a crença
padrão dos judeus no correr dos tempos. Os Sábios escreveram
que a Arca estava escondida “em seu lugar”. Isso significava
presumivelmente algum local do Templo. Especificamente é
sugerido que foi enterrada sob o piso da parte do Templo onde se
guardava a lenha para as fogueiras de sacrifício.
Deixando de lado os problemas políticos, é no Templo que o
senhor procuraria?
Se eu estivesse procurando, sempre começaria com textos. É o
que sempre aconselho aos meus alunos: Vão ao texto. Há mais a
ser descoberto em volumes velhos e empoeirados do que as
pessoas imaginam. Neste caso, acho, os textos dos Manuscritos do
Mar Morto poderiam nos dar algum esclarecimento.
A história da descoberta desses documentos notáveis começou
numa íngreme encosta da Palestina em 1947, enquanto o violento
conflito entre judeus e árabes na Palestina fugia do controle e os
ingleses, que haviam governado a Palestina nos últimos vinte anos,
estavam se preparando para fazer as malas de vez. Um pastor
beduíno, magro e desgrenhado, estava procurando uma cabra
perdida nas colinas rochosas ao longo do mar Morto. Ele jogou uma
pedra numa caverna. Em vez do balido de um animal amedrontado,
ouviu o som inconfundível de cerâmica se partindo.
Mais investigação revelou uma quantidade de jarros de
cerâmica cheios de manuscritos. Sete desses manuscritos foram
vendidos a um antiquário e falsário de Jerusalém, chamado Kando,
que por sua vez — e com algum lucro — os vendeu a clientes na

Cidade Santa: três para um estudioso da Universidade Hebraica e
quatro para o metropolitano do Mosteiro Ortodoxo de São Marcos.
Entre 1947 e 1956, um total de mais de oitocentos manuscritos ou
partes de manuscritos foram encontrados em 11 cavernas
diferentes.
Assim que a imprensa ficou sabendo, os rolos de pergaminho
se tornaram sensação. O que eles revelariam sobre as origens do
cristianismo, a pessoa de Jesus e a autenticidade da Bíblia? Logo
os estudiosos estabeleceram uma visão coletiva de que a seita judia
dos essênios, que viveu nesse local desolado mas sobre a qual se
sabia muito pouco, havia escondido os rolos enquanto o exército
romano avançava na direção deles em busca de judeus envolvidos
na Primeira Revolta Judaica (66-70 d.C.) contra o império.
Uma das descobertas mais notáveis foi o Manuscrito de Cobre.
Descoberto na terceira caverna de Qumran a revelar tesouros, o
manuscrito registra uma lista de 64 esconderijos subterrâneos para
itens valiosos: ouro, prata, aromáticos como incenso e mirra e
manuscritos.
Inicialmente vários estudiosos se recusaram a acreditar que
aquela lista de tesouros perdidos era genuína. Alguns achavam que
não passava de uma espécie de coletânea literária de histórias de
tesouros perdidos. Perguntei sobre isso a Rabin.
Ele deu de ombros.
— O Manuscrito de Cobre representou um certo embaraço.
Olhe só. — Rabin pegou uma pasta de papel na estante atrás dele e
tirou um recorte amarelado. — Foi isso que o New York Times
escreveu quando o manuscrito foi publicado pela primeira vez:
“Parece algo que poderia ter sido escrito com sangue na lua nova
por um personagem de A ilha do tesouro.” — Rabin gargalhou. —
Mas só porque é embaraçoso não significa que não fosse
verdadeiro. Claro que não era prudente anunciar demais o
manuscrito, precisávamos evitar uma corrida do ouro. Mas muito do
que foi dito na época pelos estudiosos envolvidos, Milik, Mowinckel,

Silberman, até Vaux, estava errado. Creio que posso dizer que tive
sucesso em corrigi-los — murmurou ele com uma leve satisfação
acadêmica. —A idéia deles era que isso era um tipo de piada
perpetrada por um escriba semiletrado, uma peça. Enfim, uma
espécie de fraude sobre um tesouro do Templo, fabuloso mas
inexistente, rabiscado desajeitadamente numa placa de cobre por
um asceta sujo e pobre numa imunda caverna cheia de cabras
cravada no meio do deserto, seria particularmente divertida, você
não concorda? Mas creio que meus ancestrais israelitas não eram
conhecidos por seu senso de humor! Não é?
“Não. Acredito que o Manuscrito de Cobre é o que parece ser:
um protocolo literal da evidência dos sacerdotes. É um documento
sacerdotal de Jerusalém, tenho certeza. Uma lista dos esconderijos
secretos do tesouro do Templo. É só isso, uma lista, não há prosa
exótica, nem mesmo qualquer verbo. É seca como um osso! O
problema — continuou ele — é que as descrições dos esconderijos
são sem sentido. Veja estas pistas, por exemplo.”
Ele procurou uma passagem no livro que havia retirado da
estante e começou a ler.
Um dos tesouros, consistindo em 65 barras de ouro, foi
escondido “na cavidade da Velha Casa do Tributo na Plataforma da
Corrente”.
Rabin me olhou com expressão interrogativa.
E que tal isto? Essa pilha de coisas é listada como estando “na
calha que fica embaixo do tanque de água”. Ou este tesouro que foi
cuidadosamente escondido “no Segundo Recinto, na passagem
subterrânea virada para o leste”. Ou esta coleção inestimável “no
duto de água do reservatório norte”. Eu me pergunto se os carteiros
de Jerusalém são reconhecidos pela habilidade em encontrar
endereços escritos em todas as línguas e alfabetos do mundo —
disse ele, rindo —, mas, com endereços assim, até eles teriam de
desistir! Para nossa geração, eles não fazem sentido. Quanto ao
tesouro específico do santuário, a informação não é menos vaga.

O senhor acha que essas expressões podem ser códigos?
Isso me ocorreu. Mas, pensando bem, meu sentimento é que o
documento é, de modo prosaico, o que parece ser. Uma lista de
endereços que, infelizmente, não têm mais significado.
De novo, ele leu um trecho do livro:
“Na desolação do vale de Achur, na abertura sob a subida, que
é uma montanha virada para o leste, coberta por quarenta pedras ali
colocadas, há um tabernáculo e todos os artefatos de ouro.” Isso
poderia muito bem ser referir à Arca. — Ele coçou o queixo com
vigor desnecessário.
Tive um súbito retorno à noite que passei indo até a caverna na
montanha Dumghe com meu policial guarda-costas Tagaruze: a
Dumghe era uma montanha virada para o leste e era de fato coberta
por grandes pedras redondas. Tinham-me dito que o ngoma
lungundu estava escondido sob ela. Seria possível haver uma
conexão?
O vale de Achur? — interrompi. — Isso tem alguma
ressonância para o senhor? Achur significa alguma coisa? O senhor
tem alguma idéia de onde fica?
Não, infelizmente não. O autor anônimo do Manuscrito de
Cobre, como você pode perceber, não deu referências geográficas.
Foi proposto que isso se refere a uma área ao redor do monte Nebo,
na Jordânia. É o que o livro apócrifo de Macabeus diz. Ele pegou
um livro na estante e leu em voz alta:
“O profeta [Jeremias], sendo alertado por Deus, ordenou que o
tabernáculo e a Arca fossem com ele, enquanto penetrava mais na
montanha, onde Moisés subiu [o monte Nebo], e viu a herança de
Deus. E quando chegou, Jeremias encontrou uma caverna oca,
onde pôs o tabernáculo, a Arca e o altar de incenso, e depois lacrou
a porta. E alguns que o seguiram vieram marcar o caminho, mas
não puderam encontrá-lo. E quando percebeu, Jeremias culpou-os,
dizendo: quanto ao lugar, ficará desconhecido até o tempo em que
Deus juntar Seu povo e recebê-lo em misericórdia.”

— Outra coisa — ele continuou — é que há várias indicações
de que pode ter havido duas Arcas ou mais. A primeira Arca foi
construída para abrigar as duas tábuas da lei, que tinham sido
gravadas pelo “dedo de Deus”. Quando o povo de Israel começou a
adorar o bezerro de ouro em vez de o Deus Único, Moisés quebrou
as tábuas e recebeu a ordem de criar outras novas, com texto
idêntico. A tradição judaica sugere que havia uma Arca destinada a
abrigar as tábuas da Lei quebradas e outra para as tábuas
esculpidas por Moisés.
Rabin sorriu de modo infantil, e por um segundo pude ver o
menino berlinense de décadas atrás.
Os sábios de memória abençoada deduziram uma moral a
partir da idéia de que até mesmo as antigas tábuas partidas tinham
lugar de honra na Arca: a moral era que até mesmo um velho
estudioso como eu, que esqueceu a maior parte do que sabia, ainda
merece respeito. E ainda merece descansar.
O velho, que subitamente parecia muito frágil, levou-me à porta
e explicou que era hora de seu sono da tarde. Hesitou quando
chegamos à porta do escritório e seu rosto pareceu ficar vazio.
Controlando-se, murmurou gentilmente:
— Minha mãe me fez aprender um longo poema em inglês
quando eu era menino. Vejamos se consigo lembrar algum pedaço:
— Pode ser verdade que numa terra distante
A Arca de Deus no exílio ainda resida
Descansa com os que têm mão pura
Que fazem sua vontade.
Ele recitou na voz aflautada de um menino na puberdade.
Sorrindo, despediu-se de mim.
De novo as sirenes de Jerusalém estavam alardeando ao
mundo que nem tudo ia bem na Cidade da Paz. Imaginando se os

“que têm mão pura” ainda estariam guardando a Arca num canto
remoto do mundo, voltei à Cidade Velha com muita coisa na cabeça.
Uns dois dias mais tarde combinei um encontro com Reuven no
Fink’s Bar, na esquina das ruas Rei George e Histadrut, no oeste de
Jerusalém. Havia soldados em toda parte e a cidade estava tensa.
Fiel à sua palavra, Rabin havia me mandado pelo correio uma
bibliografia com várias dezenas de itens. Também me mandou uma
carta breve e educada, pedindo desculpas por ter saído antes que
tivéssemos realmente terminado a conversa. Queria definir seus
pensamentos com mais clareza.
Quando eu era menino na Alemanha, há tantos anos, durante a
República de Weimar, quem imaginaria que os Manuscritos do Mar
Morto seriam descobertos? Afinal de contas, os rolos, escritos em
pergaminho, são muito mais frágeis do que objetos de ouro ou
prata, ou até mesmo a Arca, feita de madeira de shittim. E se eles
foram redescobertos nas cavernas de Qumran depois de dois mil
anos, por que não a Arca e o Tesouro do Templo?
Reuven leu a carta, assentindo. Contei-lhe que Rabin havia dito
que o Manuscrito de Cobre parecia oferecer o melhor caminho
possível para decodificar as pistas. Enquanto eu pedia um uísque
para nós dois, ele examinou a bibliografia e me colocou a par de
pesquisas recentes sobre a Arca. Estivera fazendo investigações
nas semanas anteriores.
Como Rabin havia sugerido, muita gente estava atrás dela.
Havia um jovem americano excêntrico que costumava ficar no
hotel Petra, logo no interior da Porta de Jafa. Bebia muita vodca e
tinha mais namoradas do que podia controlar, mas possuía diploma
de Stanford em línguas semíticas e mente boa. Havia feito amizade
com uma família árabe que possuía uma casa não muito longe do
Monte do Templo e supostamente estivera escavando com
entusiasmo no quintal. Reuven disse que havia outros como ele, e
me fez um relato distraído de afirmações recentes.

Falou longamente sobre três americanos que estavam
empolgados na trilha da Arca. Havia Ron Wyatt, do Tennessee, que
Rabin mencionara e que afirmava ter encontrado a Arca numa
caverna perto de Jerusalém. Contou sobre um físico pesquisador do
Laboratório de Física do Rádio da SRI International em Menlo Park,
Califórnia — que havia voado sobre o Monte do Templo para obter
imagens de raios X dos alicerces usando magnetômetros de feixes
de césio, mas tinha fracassado em localizar a Arca. E havia um tal
de Tom Crotser, que anunciara em 1981 ter desenterrado a Arca
perto do monte Nebo, na Jordânia. Fotografias foram tiradas, mas
só uma fora liberada ao público, e parecia mostrar um baú de latão,
com aparência recente, e um prego decididamente moderno se
projetando.
O Fink’s vivia cheio de escritores, poetas e alguns políticos bem
conhecidos. Como sempre, era mal iluminado. Todas as sete mesas
estavam ocupadas — pessoas tomavam goulash ou tafelspitz com
khren — molho de rábano-picante e beterraba — especialidades
austro-húngaras da casa, atendendo às tradições e à nostalgia da
diáspora que permeiam todos os aspectos da vida israelense.
Um político de terno escuro veio à nossa mesa e, em voz baixa,
disse que houvera algumas discussões alarmantes sobre a abertura
de uma entrada sob o Monte do Templo. O Shin Bet — o serviço de
segurança interna de Israel — estava examinando prováveis
reações dos muçulmanos. O político explicou:
— Houve algumas escavações não-autorizadas feitas pela
Ateret Cohanim há cerca de um ano, procurando a Arca, que
causaram um bocado de ressentimento por parte da população
muçulmana. Em outubro de 1991 um grupo chamado de Fiéis do
Monte do Templo marchou para lá com estandartes provocadores.
Correu o boato de que estavam planejando colocar os alicerces de
um novo Templo. Como vocês sabem, 22 palestinos foram mortos
nos tumultos que se seguiram. Se alguma grande escavação fosse
feita lá agora, correria sangue por todo o mundo muçulmano, desde
Casablanca até Karachi! E os judeus não seriam poupados.

Alguns minutos depois, minha amiga mais antiga em
Jerusalém, Shula Eisner, que trabalhava com o prefeito da cidade,
Teddy Kollek, entrou no bar com o prefeito e um grupo de visitantes
americanos muito bem vestidos. Shula veio à mesa por um
momento. Eu havia lhe contado sobre Reuven e seu interesse pela
Arca, e aproveitei a oportunidade para apresentá-los. Quando ela
estava saindo, perguntei se a prefeitura estivera envolvida no
fechamento das escavações no Monte do Templo. E se estava
envolvida em discussões para abri-las de novo.
Pessoal — disse ela com seu sotaque do Bronx —, nem
perguntem isso! Jerusalém está calma no momento. Vamos mantêla assim. Qualquer coisa que tenha a ver com o Monte do Templo é
tremendamente inflamável! Quanto à Arca da Aliança, deixem essa
coisa velha em paz! — E foi se juntar a Kollek e seus convidados.
O bar se esvaziou, e por volta da meia-noite saímos para a rua
King George. Logo antes de nos separarmos, Reuven perguntou:
Você tem algum tempo livre?
Acho que posso ter — respondi com relutância.
O motorista de Reuven estava esperando na King George, a
poucos metros do Finks’. Quando chegamos ao carro, Reuven abriu
a porta e me empurrou. Saí na porta de Jafa. Reuven me desejou
boa-noite de um modo meio preocupado e prometeu que logo faria
contato.
As ruas ainda estavam cheias de soldados. Parecia haver
algum tipo de alerta de segurança e eu não me sentia à vontade
caminhando pelos becos escuros da Cidade Velha, mesmo que
houvesse barreiras em quase todas as esquinas. Fiquei feliz quando
cheguei em casa.
Uma brisa fresca do deserto vinha dos morros da Judéia
quando parei no meu terraço olhando na direção da Cúpula da
Rocha. Não conseguia olhar para o Monte do Templo sem pensar
na Arca. Decidi fazer alguma leituras.

Nas duas semanas seguintes me enterrei na Sala de Leitura
Judaica da Universidade Hebraica e na Biblioteca Nacional de
Jerusalém. As prateleiras eram repletas de volumes empoeirados, à
beira da desintegração, muitos dos quais tinham sido reunidos
depois da Segunda Guerra Mundial vindos de bibliotecas e
seminários judeus por toda a Europa. Os antigos selos de
bibliotecas e sinagogas de Pressburg, Lodz e Odessa falavam de
centenas de anos de trabalho intelectual destruído. Muitos leitores
da biblioteca eram judeus ortodoxos cobertos de preto examinando
raros tratados rabínicos. Rapazes pálidos com cabelos curtos e
óculos grossos balançavam-se para trás e para a frente enquanto
liam.
Depois das semanas na biblioteca, passei vários dias sem ver
ninguém e praticamente sem sair de casa. Esse novo interesse
estava se tornando uma obsessão, e eu passava horas examinando
minhas anotações e tentando entender a Arca. O telefone tocava e
eu não atendia.
Como já não me viam há algumas semanas, meus amigos
árabes do suq presumiram que eu estava doente, e me trouxeram
hubiz — pão árabe chato —, azeitonas pretas brilhantes e ovos
cozidos. Tomei o qahehweh, o grosso café árabe, e ponderei sobre
o mistério da arca.
Nos anos anteriores eu havia visitado comunidades judias em
todo o mundo. Lembrei-me de uma noite que passei com o rabino
chefe de Djerba, uma ilha no litoral da Tunísia. Foi mais ou menos
na época da páscoa. O rabino me convidou a jantar numa pequena
casa caiada no coração do antigo bairro judeu chamado Hara
Seghirah. Durante o jantar a conversa abordou a destruição do
Templo.
Ele descreveu com detalhes explícitos o saque de Jerusalém, a
destruição do Santo dos Santos, o barulho das botas no pavimento
de mármore da moradia do Altíssimo. E enquanto descrevia esse
desastre nacional, ele chorava. As lágrimas corriam por suas
bochechas enrugadas e pela barba branca e revolta.

Rabin estava certo com relação a uma coisa, pensei. Se a Arca
fora destruída pelos babilônios ou pelos romanos, os judeus
realmente ainda estariam lamentando isso.
E a idéia de que judeus teriam feito absolutamente qualquer
coisa para salvar as peças preciosas de sua herança também foi
confirmada pelo que fiquei sabendo em Djerba. O venerável rabino
me contou que um grupo de sacerdotes fugiu para o litoral da África
do Norte depois da destruição de Jerusalém pelos babilônios,
encontrando a comunidade Djerba e trazendo com eles uma porta e
uma pedra resgatadas do Santo dos Santos. A pedra pode ser vista
até hoje. Não havia qualquer tradição sobre a Arca ter ido a Djerba,
mas os sacerdotes haviam levado o que puderam salvar de sua
herança espiritual.
— Siga os sacerdotes — dissera Rabin.
Era fevereiro de 1993 e Jerusalém estava começando a
desfrutar de uma primavera precoce. Sentei-me um dia de manhã
em meu pequeno quintal, sob o limoeiro, rodeado por vasos de
ciclâmen e manjericão de folhas pequenas, e tentei resumir em
minha mente o que era conhecido historicamente sobre a Arca até
seu desaparecimento do templo do rei Salomão em Jerusalém.
Assim que os israelitas, sob o comando de Moisés, haviam
escapado da escravidão do faraó e atravessado o Mar Vermelho,
penetraram no Deserto do Sinai. Na primeira lua nova depois da
fuga, acamparam diante do Monte Sinai. Deus ordenou que Moisés
subisse a montanha para receber a Lei.
Tendo recebido a Lei na forma dos Dez Mandamentos gravados
em tabuletas de pedra “pelo dedo de Deus”, ele desceu a montanha
e descobriu que os israelitas estavam adorando a estátua de um
bezerro de ouro. Em fúria, Moisés despedaçou as tabuletas e
recebeu a ordem de Deus para criar um novo conjunto idêntico.
Os Dez Mandamentos formavam uma parte essencial do
acordo, ou aliança, feito entre Deus e os israelitas. Moisés recebera

instruções de Deus para construir a Arca dessa aliança, onde as
tabuletas de pedra que incorporavam o acordo seriam postas.
Há duas descrições bíblicas muito diferentes sobre a
construção da Arca.
Na primeira descrição a Arca é construída por Bezalel, o artista,
sob ordens de Moisés. A caixa era totalmente coberta do ouro mais
puro. Sua tampa (o kapporet), conhecida como o “trono da
misericórdia”, era cercada por uma borda de ouro. Em cima havia
querubins de ouro cujas asas estendidas formavam um arco sobre
ela. Havia dois aros de ouro de cada lado, através dos quais as
varas para carregar a arca poderiam ser inseridas.
A segunda versão da construção da Arca é mais simples.
Segundo o livro do Deuteronômio, foi o próprio Moisés que a
confeccionou, e era um objeto totalmente diferente. Era apenas uma
caixa de madeira comum. Não há qualquer menção de pregos,
juntas ou cola. De modo que talvez fosse simplesmente um tipo de
recipiente tornado oco a partir de um tronco de árvore, com o uso de
uma faca ou cinzel.
A Arca, nas duas formas, era feita de acácia — shittim, em
hebraico. Em muitas regiões áridas da África, a acácia é a árvore
arquetípica. No deserto do Sinai — a ponte de terra entre a África e
a Ásia — a acácia domina o ambiente, suprema. Seria praticamente
o único material de construção disponível naquele ermo.
A madeira de acácia é excepcionalmente dura, muito pesada,
densa, e resiste durante muito tempo. Em condições desérticas, não
estragaria. No Egito há painéis de acácia que sobreviveram por bem
mais de três mil anos.
Nas condições certas a Arca poderia durar praticamente para
sempre.
A Arca tinha 2,5 côvados de comprimento, 1,5 côvado de
largura e 1,5 côvado de altura, o que se traduz como cerca de
sessenta centímetros de largura, sessenta de altura e cerca de
noventa de comprimento.

Mais ou menos o tamanho de uma mala grande.
Era facilmente transportável, fácil de esconder.
Mas para que servia? O primeiro objetivo da Arca era servir
como receptáculo para as tabuletas de pedra. O segundo era servir
como trono de Deus, que era visualizado sentado logo acima das
asas estendidas dos querubins. A parte inferior da arca era vista
como a ban